Rio 2016

Outubro 4, 2009 - Leave a Response

Vejo a escolha do Rio como cidade sede das Olimpíadas de 2016 como uma ótima oportunidade para a construção de uma agenda política no Brasil, a única coisa capaz de nos fazer transcender o sectarismo político, que se acirra de dois em dois anos e nos condena a um trabalho de Sísifo, que precisa ser eternamente refeito, em vão.

As suspeitas quanto às promessas de prosperidade que vêm do anúncio da vitória do Rio de Janeiro são, de fato, pertinentes, especialmente se levamos em conta a história do país, aparentemente marcada por saltos e rupturas que parecem apenas mascarar a realidade em nome de um “país do futuro” que nunca chega. Sim, nós temos problemas de corrupção. Sim, muita gente está mais preocupada com os benefícios políticos que a Olimpíadas podem trazer do que com os possíveis benefícios, que dependem muito mais do trabalho, da cooperação e da capacidade de planejamento do que dos discursos que serviram para costurar essa vitória. Nada disso justifica satisfatoriamente o desprezo pelos jogos, afinal, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa…

Só posso atribuir a rejeição de uma determinada parcela de cariocas e brasileiros à realização das Olimpíadas no Rio a duas causas: ou ela está ligada ao sectarismo ao qual me referi no começo, que os faz crer que esta é uma vitória deste ou daquele governo e, por isso, deve ser diminuída para não resultar em força política; ou é fruto do bom (?) e velho “complexo de vira-lata”, lindamente identificado por Nelson Rodrigues.

Daqui até as Olimpíadas, sete anos nos separam. O sucesso ou o fracasso dessa empreitada vai depender de como o país (e aí incluo as instâncias políticas, institucionais, midiáticas e, sobretudo, sociais) vão se articular em torno dessa agenda comum. Trata-se de um evento grande demais para ficar sob responsabilidade exclusiva do poder público. Sem o envolvimento da sociedade, o evento será um fracasso. E ninguém terá o direito de reclamar.

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Complexo de vira-latas
por Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: – “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto: – não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: – desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: – “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: – é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: – o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: – se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: – o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: – eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: – sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: – não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: – qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: – temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: – “O que vem a ser isso?”. Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: – o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: – para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

em torno do discurso do Mercadante

Agosto 23, 2009 - 3 Responses

Li o discurso do Mercadante feito na tribuna do senado na semana passada e resolvi analisá-lo mais detalhadamente. Muitos pontos suscitam reflexões importantes. Mas a que me interessou mais foi a questão da amizade com Lula, descrita por Mercadante como determinante de seu percurso político:

Na campanha de 1989 [...] quando andei pelo Brasil todo com o presidente Lula, eu ganhei uma visibilidade que eu não esperava. Naquele momento, eu tinha ganhado uma bolsa de estudos para ir para fora do Brasil estudar a integração européia, a união européia que eu achava que era o caminho da América do Sul. E não fui. Não fui porque, em 1990, em 1988, o Presidente Lula pediu para eu ficar para a campanha e, quando terminou a campanha, ele falou: “Não, Mercadante, fica; ajude a montar a minha campanha para Deputado Federal”. Nós perdemos a eleição. Eu fiquei. Um mês depois ele falou: “Eu sou candidato; você tem que ser candidato”. A minha vida mudou totalmente de rumo e eu acolhi o pedido que ele tinha feito.

Depois que eu virei deputado, falei: bom, agora eu fiz o meu primeiro mandato, vou para o segundo. Quando estava concluindo a campanha, o Presidente Lula pediu, no meio daquela crise da campanha, falou: “Você vai ter que deixar o mandato de Deputado Federal, você tem que ser vice na minha chapa para a campanha presidencial”. Eu não discuti duas vezes. Abri mão na hora. Sabia que era uma campanha muito difícil e tive orgulho de fazer o gesto que fiz.

Mais do que a relação de amizade, o discurso de Mercadante aponta para uma relação de admiração exacerbada, quase um sentimento de amor por Lula. Além da coação, só sentimentos dessa natureza (amor ou ódio) são capazes de fazer alguém mudar o rumo da própria vida em favor de alguém. Pode-se argumentar que o amor é à causa, ao ideal de partido que os dois construíram juntos no início dos anos 80. E Mercadante aponta mesmo nessa direção, quando afirma: “Eu sou petista antes de o PT existir”.

A complexidade aumenta, no entanto, quando comparamos a justificativa para a “decisão irrevogável” com aquela em defesa da “revogação”. O primeiro movimento apontava, de fato, para uma vontade de recuperar um ideal de PT que, se andava alquebrado desde os escândalos do “mensalão”, fora ferido de morte ao sacrificar a bandeira da “transparência” e do respeito às instituições democráticas para defender, de maneira vergonhosamente explícita, o “patrimonialismo” e o “nepotismo” encarnado em Sarney. Sob essa ótica, a decisão de deixar a liderança do partido e manifestar publicamente sua divergência em relação à postura assumida pelo mesmo mostrava-se absolutamente coerente com o discurso de retorno aos princípios fundamentais do PT. O apelo de Lula, no entanto, parece ter feito implodir essa equação. Ora, ao dizer que, em nome de Lula, deixa o ideal em segundo plano, Mercadante, a um só tempo, entra em contradição e abre um precedente perigoso, afinal, não é em nome das amizades e dos laços de família que a lógica nepotista leva políticos como Sarney a atropelarem os princípios institucionais?

Ao levantar essas questões, não pretendo julgar atitude de Mercadante, muito menos acusá-lo de covardia por ter voltado atrás em sua decisão irrevogável. Minha intenção é por evidência precisamente essa relação promíscua que em geral se estabelece entre o público e o privado em política. O objetivo não é discutir, de forma maniqueísta, se isso é bom ou ruim em si mesmo, mas o quanto questões como essa são relevantes para pensarmos o debate em torno das instituições democráticas. É que em sua concepção original, essas instituições não levam em consideração variáveis imprecisas, como amizade, consangüinidade, amor, ódio e outros afetos. Até que ponto esses afetos atuam como infiltrações, minando a solidez das instituições até fazê-la apodrecer por completo? Até que ponto as instituições estão preparadas para a dinâmica da vida, que, dia após dia, põe em jogo variáveis novas que, conjugadas, convertem-se em fluxos, por assim dizer, não institucionalizáveis?

muppets, but not babies (ou apontamentos sobre Avenida Q)

Julho 27, 2009 - One Response

Consegui dar um tapa na preguiça na última quinta-feira e levei esta carcaça que me abriga para ver o musical Avenida Q. A montagem estava entrando em sua última semana no Rio e se eu realmente quisesse descobrir do que se tratava o badalado espetáculo, o momento era aquele.

No sábado anterior, tinha ido à Gávea para ver a exposição de Robert Polidoro, em exibição no Instituto Moreira Salles [esse rodeio todo foi só pra citar a exposição, que recomendo fortemente, mas sobre a qual não vou escrever nada] e aproveitei para comprar o ingresso. Sabia que o dinheiro empregado na compra me faria sair de casa na quinta, por maior que fosse a preguiça. A estratégia deu certo.

A primeira vez que ouvi falar de Avenida Q. foi no Borduna. Na semana anterior à estréia, a equipe responsável pela divulgação do espetáculo no Rio decidiu experimentar o suposto potencial da Web 2.0 para promover a estréia. Convidaram um grupo de blogueiros cariocas para comparecer à pré-estréia e produzir um texto sobre. Não sei bem como, mas o Borduna foi um dos selecionados. Na ocasião, me convidou para ir com ele, mas recusei o convite, vitimado pelo preconceito criterioso (que me faz desconfiar de estratégias promocionais) e com a casa cheia de visitas (minha mãe estava no Rio como acompanhante de minha irmã, que viera para ir ao show do Radiohead comigo). Os comentários dele no pós-espetáculo foram deveras positivos e como em geral confio bastante em seu bom gosto, acabei me interessando pela peça.

Bendita hora em que resolvi tomar uma atitude e comprei o ingresso. Pense num Muppet Babies roteirizado pelo Todd Solondz e encenado na Avenida Dropsie. Pensou? A peça é mais ou menos isso.

Os críticos de Avenida Q, que não foram nada econômicos nos elogios falaram muito bem da adaptação realizada por Möeller & Botelho e já destacaram suficientemente a brilhante interpretação dos atores, dois pontos sobre os quais eu também discorreria, se isso não fosse chover no molhado.

Assim, puxando apenas um fiozinho desse novelo de críticas,  queria falar do humor de Avenida Q, que foi criticado (de leve, mas foi) por ser “americano demais”.

A pergunta que fiquei me fazendo quando li isso, foi: queria que fosse humor inglês, mané? Qual é exatamente o problema de ser americano demais? Com a quantidade de séries, filmes e sitcoms que a gente consome diariamente na TV a cabo o conteúdo Avenida Q está longe de ser inapreensível. Quem ri com Friends e Seinfeld, ri com o musical de Jeff Witty. E ri muito.

A maior prova de que o humor norte-americano já não precisa mais de adaptações está nas gags que na peça foram abrasileiradas e atualizadas para ficar up to date com as notícias do momento; quando fui, o Sarney era a bola da vez (o que arrancou aplausos efusivos da parcela carioca-zona-sul-personagem-de-Manuel-Carlos da platéia). Se for pra citar algo que me incomodou na peça, foi isso. A cada vez que um personagem soltava um comentário sobre o Botafogo naquele cenário de prédios nova-iorquinos meu willing suspension of disbelief ia por água abaixo e eu soltava um suspiro de tédio.

Fora isso, adorei a peça. Os bonecos realmente funcionam como vetores de nossa empatia. A desculpa para usá-los (quem deu foi o autor da peça) era de que eles seriam capazes de suavizar os temas pesados (para a plantéia do Wioming, de certo) e politicamente incorretos (isso sim é americano demais!).

Já me acostumei a essa “arte” do politicamente incorreto graças ao cinema independente produzido nos EUA. Boa parte dos filmes premiados em Sundance, ano após ano, orbitam esse universo de crítica comportamental/ideológica. E boa parte deles também comete o mesmo equívoco: o de tornar-se tão moralmente opressor quanto a moral que visa criticar. É mais ou menos o que acontece nos filmes do Todd Solondz (eu já falei que não gosto do Todd Solondz?), por exemplo, onde os personagens transitam na tela como meros títeres a serviço da vontade de denúncia do diretor.

Em Avenida Q, no entanto, parece acontecer o contrário. É como se Witty partisse dos bonecos e dos clichês moralistas para dizer do homem, esse bichinho complexo e frágil, eternamente suscetível aos fantasmas do medo, da incerteza e, sobretudo, da solidão.

E eu adorei isso.

A peça deve ir para São Paulo depois daqui. Se liga-aê, ô paulistada!