adeus, velho safado

Julho 9, 2009 - One Response

Bukowski-Words

Eu quero mudar. Sei que os leitores mais assíduos do blogue vão duvidar disso. Sei que aqueles que me conhecem vão rolar no chão, às gargalhadas. Mas é sério. Eu quero levar uma vida mais saudável. Minimamente mais saudável. E quem me conhece sabe o esforço e a força de vontade que isso exigirá de mim.

Sou um sedentário de carteirinha. Há mais ou menos 10 anos, substituí os exercícios, que incluíam partidas semanais de futebol, braçadas nas águas geladas da enseada azul e corridas de ida e volta na areia fofa da Praia do Morro por hábitos mais prazerosos e fatais, como comida farta, bebidas cigarros e mulheres (com muita, muita ênfase nos três primeiros itens, mais por incompetência que por opção).

De certa forma, tomei gosto pela vida boêmia. E, sobretudo, tomei gosto pela aura que saía dela. Essa coisa hedonista de livros, noitadas e embriagues tem realmente um charme. Sobretudo quando se é jovem e se tem uma vida toda pela frente para me endireitar (engraçado como a idade faz a gente querer se endireitar) quando as coisas começarem a dar errado.

Acontece que eu não tenho mais a vida toda pela frente. E algumas coisas já começaram a dar errado. Por exemplo? Faz três semanas que lido com bizarrices mais ou menos incômodas. Mais ou menos, não. Extremamente incômodas. Primeiro foram as inflamações subcutâneas que pipocaram em meu rosto: foram três espinhas, imensas, horrendas, dolorosas Atribui seu aparecimento a um possível estresse, a uma reação psicossomática a algum tipo de insatisfação existencial que, oprimida pelo meu racionalismo superprotetor, resolvera dar as caras na cara. “Tudo bem”, pensei. “Eu posso lidar com isso. Deve ser o álcool saindo, haha”.

Mas depois eu relaxei. Meu aniversário foi ótimo, estava tudo em paz, tudo tranqüilo, cheio de paz e harmonia… quando espocou o terçol. O primeiro em 28 anos de aporrinhação. O primeiro, em 28 anos de crises existenciais e pirações. O primeiro. Bem quando eu estava bem, veio o primeiro.

Havia alguma coisa errada. E não era só estresse.

Estou tratando o bichinho. Fui ao oftalmologista ontem. Depois de fazer uma cara de assustado e me repreender por não tê-lo consultado antes, o cabra receitou-me um colírio e uma pomada oftalmológica, que, de ontem pra hoje, já parecem ter surtido algum efeito. Por um momento, hoje de manhã, pensei: “Beleza, semana que vem, já posso voltar à lama”.

Mas aí eu resolvi refletir. E refletindo, cheguei às conclusões esboçadas no primeiro parágrafo: eu quero mudar. Como disse a Helena, quando falei de minha vontade de saúde, ela foi direta: “Essa linha Bukowski não tem mais graça”. Na mosca. Era isso mesmo que eu precisava ouvir. Algo que já percebera faz tempo, mas que ficava tentando ocultar de mim mesmo, para sustentar o personagem.

É isso, povo. Sejamos honestos: eu estou longe de ser um Bukowski, seja no talento, seja no estilo de vida. Não sou nem tão boêmio, nem tão velho, nem tão safado. Não sou alemão, sequer estava vivo nos anos 60 e, atualmente, estou longe de ser um vagabundo iluminado, cheio de poesia e de fome. Reconheçamos (vá lá, eu sei que vocês já sabem disso, mas deixem-me fingir que estou contando uma novidade): sou apenas um trabalhador ordinário, que durante oito horas de seu dia lida com tarefas mais ou menos inúteis, que não fazem diferença nem para o mundo (acho que o emprego ideal é aquele capaz de alterar os rumos da história), nem para a empresa (o que faço não tem impacto algum na atividade fim) e nem para mim (porque em geral as coisas que faço não exigem muito esforço criativo ou inteligência). Logo, qual é a graça de encarnar o Bukowski? Qual é a graça de entrar num espiral autodestrutivo toda vez que acaba o expediente? Qual é a graça de ser meio cronópio y meio fama? Isso é esquizofrenia!

Foi seguindo essa lógica que decidi: quero começar a correr. Faz tempo que leio sobre corrida e fiquei particularmente tocado com o texto de um colega de trabalho, que adquiriu esse hábito e, de certa forma, usa-o como contraponto à vida bandida do escritório. Hoje mesmo eu vinha falando no assunto quando abri o blogue do Antônio Prata e estava lá este texto, sobre corrida e aí decidi que isso era um sinal. Vou começar a correr.

tudo se ilumina

Julho 7, 2009 - One Response

Já li um bocado este ano. Muita coisa boa, algumas bombas e, por fim, uma obra-prima. Sem exageros: Tudo se ilumina, o romance de estréia de Jonathan Safran Froer foi (possivelmente) uma das coisas mais lindas que já li nos últimos tempos e (com certeza) o melhor livro que já li este ano. Não acredita? Vai lá e lê. Depois a gente conversa.

Tudo bem, está certo, tem gente que pode dizer que o livro é pretensioso, metido a meta – metalinguístico, metafórico: meteorito hermético caído de uma galáxia muito, muito distante –, mas tudo isso é babela. O livro é doce. Não, não, doce não: é agridoce. E a maior prova é que ele passa pelo tema mais gasto do século XX, a questão judaica, sem cair na pieguice do “oh, vida, oh azar”. Jonathan sabe que “só se pode contar uma história triste de forma humorística” e, como todo judeu liberto do judaísmo, sabe melhor ainda que desse humor tragicômico seu povo entende como ninguém (vide Seinfeld e Woody Allen), afinal:

OS JUDEUS TÊM SEIS SENTIDOS

Tato, paladar, visão, olfato audição e… memória. Enquanto os Gentios apreendem e processam o mundo através de seus sentidos tradicionais, e usam a memória apenas como um recurso de segunda categoria para interpretar os acontecimentos, para os judeus a memória não é menos primordial do que a picada de um alfinete, seu brilho prateado, ou o gosto de sangue que sai do dedo. O judeu é picado por um alfinete e se lembra de outros alfinetes. É somente rastreando a picada do alfinete e voltando a outras picadas de alfinete – quando sua mãe tentou pela primeira vez consertar-lhe a manga com seu braço ainda dentro dela, quando os dedos de seu avô ficaram dormentes de tanto alisar a testa úmida de seu bisavô, quando Abraão testou a ponta da faca para ter certeza que Isaac não sentiria dor – que o judeu consegue saber por que aquilo dói.

Quando um judeu encontra um alfinete, pergunta: o que isto me faz lembrar?

Talvez brote desse parentesco com Funnes, o memorioso, a melancolia que salta tanto das entrelinhas do bem humorado texto de Safran Foer, como dos diálogos verborrágicos de Woody Allen. Talvez seja esse memorialismo que tenha levado Jonathan à Ucrânia, em busca de suas origens, onde ele encontraria algo mais importante que a história de seu avo: uma vocação (esta frase poderia entrar no teaser promocional de Uma Vida Iluminada, filme que eu não vi, mas sei que foi baseado no primeiro romance de Foer).

Reza a lenda – e a orelha do livro – que o escritor mora atualmente no Brooklin, em Nova York, nasceu em 1977, já trabalhou como assistente de necrotério (o que, se não explica, nos faz refletir sobre o fundo algo mórbido sob o qual se desenrolam seus romances: ora as atrocidades do holocausto, ora a barbaridade do 11 de setembro, como em Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, seu segundo livro), vendedor de jóias (olha o clichê judaico), fazendeiro (oi?) e ghostwriter (o emprego dos meus sonhos).

Ignoro solenemente os livros que Safran escreveu como fantasma, bem como seus contos, publicados em revistas que estou com preguiça de elencar. Mas dos dois romances publicados até então, só tenho coisas boas a dizer (como você, leitor perspicaz que é, já deve ter percebido). Meu primeiro contato com a literatura dele eu atribuo à curiosidade que me despertaram as risadas de uma colega de classe. Eu fazia um curso de comunicação com um grupo comunicadores (jornalistas, publicitários e relações públicas) que acabara de entrar, comigo, em meu atual emprego. À minha frente, estava essa menina, uma sagitariana baixinha e reservada, que falava pouco, mas ria alto a cada virar de páginas. Não resisti. Perguntei que livro era esse que conseguia arrancar dela tantas risadas. Era Extremamente alto & Incrivelmente perto. Ele me estendeu o livro para eu dar uma folheada e, a princípio, aquilo me pareceu uma dessas jogadas oportunistas. Sabe como é: jovem escritor, bem recebido pela crítica em seu romance de estréia, lança, pouco depois, outro romance em torno do tema mais urgente dos Estados Unidos (pra não dizer, do mundo) e manda ver. Sei não. Parecia mais uma dessas novelas caça-níqueis que os americanos sabem fazer como ninguém. “Quem é esse maluco? É bom mesmo?”, perguntei. “Cara… eu não conhecia ele não, mas comecei a dar uma lida na livraria e quando li coisas como esta aqui”, disse ela tomando o livro e procurando uma página específica, “pensei: eu tenho que ler isso”. A frase que ela me mostrou era um dos muitos pensamentos inusitados do jovem protagonista do livro, um moleque meio nerd que tentava lidar com a morte de seu pai, no atentado ao World Trade Center, enquanto trocava correspondências com Stephen Hawking. No fim de semana seguinte, topei com dito cujo (o livro do Foer, não o Stephen Hawking) na Saraiva. Comprei.

Tenho que admitir que a baixinha estava certa. Apesar de ter O Jogo da Amarelinha como livro de cabeceira, eu nunca fui muito chegado em invencionismos quando o assunto é literatura (tenho essa falha de caráter). Tendo a acreditar que enredos rocambolescos , narrativas fragmentadas e o uso descomedido de neologismos, em geral, só servem para esconder certas limitações. Tenho cá um mecanismo de alerta que serve pra me manter afastado dos embusteiros de plantão. Meu lema é: a menos que você seja um gênio, faça o simples; se não conseguir fazer o simples, nem faça.

Se você acompanhou o raciocínio que eu engendrei no último parágrafo, vai entender o risco que corro ao escrever a seguinte frase: Jonathan Safran Foer é genial.

Está certo, posso relativizar um pouco. Sou suficientemente flexível para admitir que existem níveis de genialidade que impedem o novato Safran Foer de figurar, em pé de igualdade, ao lado de um Borges, de um Cortázar ou de um Guimarães Rosa. Mas Tudo de Ilumina e Extremamente alto & Incrivelmente Perto são melhores que 90% da obra de Garcia Marquez. Pronto, falei.

Vamos, vamos, pode ir distorcendo esse nariz aí. Reconheça que, tirando Cem Anos de Solidão (que é uma dessas obras que só aparecem de cem em cem anos de solidão), o colombiano não é lá essas coisas. Não fosse pelos contos de A incrível e triste historia de Cândida Erêndira e sua avó desalmada, que mostram aquele mundo-Macondo é mesmo coisa dele, eu seria capaz de desconfiar da honestidade do escritor caribenho. Feita essa ponderação, dá uma olhada neste outro trecho de Tudo de Ilumina:

A vida de Brod era uma lenta percepção de que o mundo não era para ela, e de que – fosse por que razão fosse – ela jamais seria feliz e sincera ao mesmo tempo. Ela sentia-se transbordar, sempre produzindo e guardando mais amor dentro de si. Mas não havia libertação. Mesa, bibelô de marfim em forma de elefante, arco-íris, cebola, penteado, moluscos, Shabbos, violência, cutícula, melodrama, vala, mel, paninho ornamental… Nada daquilo a comovia. Ela abordava o mundo com sinceridade, buscando algo merecedor do enorme amor que ela sabia ter dentro de si, mas para cada coisa teria de dizer, Eu não te amo. Mourão de cerca cor de casca de árvore: eu não te amo. Poema longo demais: eu não te amo. Almoço na tigela: eu não te amo. Física, tua idéia, tuas leis: eu não te amo. Nada dava a sensação de ser mais do que na realidade era. Tudo era apenas coisa, completamente atolada em sua coisice.

Se abríssemos ao acaso uma página no diário dela (que ela devia manter, e mantinha consigo o tempo todo, não por temer que fosse perdido, ou descoberto e lido, mas sim por temer esbarrar um dia com algo finalmente merecedor de registro e lembrança, e não ter onde registrá-lo), encontraríamos algumas descrições do seguinte sentimento: eu não estou apaixonada.

E assim ela tinha de se satisfazer com a idéia de amor – amando o amor de coisas com cuja existência ela pouco se importava. O próprio amor se tornou objeto do amor dela. Ela se amava no amor, amava amar o amor, tal como o amor ama amar, e assim conseguia se reconciliar com um mundo que estava muito aquém do que ela poderia esperar. Não era o mundo que era a grande mentira salvadora, mas a vontade dela de torná-lo belo, de viver uma vida em segundo grau, num mundo aparentado em segundo grau, num mundo aparentado em segundo grau com aquele no qual todos os outros pareciam existir.

Ainda não está convencido? Que tal este outro?

Mas cada um era a coisa mais próxima de algo merecedor de amor que o outro encontraria. E portanto os dois davam ao outro todo seu amor. Ele arranhava o joelho e dizia: Eu também caí. Ela derramava água nas calas para que ele não se sentisse sozinho. Ele lhe dera aquela conta. Ela a usava. E quando Yankel dizia que morreria por Brod, certamente estava falando sério, mas aquilo pelo qual ele morreria não era Brod, exatamente, e sim seu amor por ela. E quando ela dizia: pai, eu te amo, não estava sendo ingênua ou desonesta, mas o oposto: estava sendo sábia e verdadeira o suficiente para mentir. Eles permutavam a grande mentira salvadora – a de que nosso amor pelas coisas é maior que nosso amor pelo amor pelas coisas –, deliberadamente desempenhando os papéis que escreviam para si mesmos, deliberadamente criando ficções necessárias para viver, e acreditando nelas.

Percebe o que estou tentando dizer? Tenho certeza que, a menos que seja um boçal (neste caso, recomendo que interrompa a leitura imediatamente), você está obrigado a admitir que o moleque tem talento.

Talento e versatilidade. Sim, porque esse é apenas um dos estilos pelos quais Foer passeia em Tudo se ilumina (será que ele aprendeu isso como ghostwriter?). Há no texto uma polifonia que a princípio pode parecer caótica, mas se harmoniza lindamente para formar um totalidade  que surge aos poucos para do leitor, na combinação de trechos como os apresentado acima, com outros como este:

Mamãe é uma mulher muito humilde. Muito, muito humilde. Ela labuta num pequeno café que fica a uma hora de distância da nossa cada. Lá ela apresenta comida e bebida para os fregueses, e diz para mim: — Eu faço uma jornada de uma hora de ônibus para trabalhar o dia todo fazendo coisas que odeio. Quer saber por quê, Alexi-pare-de-me-enfezar! Um via você também vai fazer coisas para mim que odeia. É isso que significa ser uma família.

Sínteses como essa do amor – impregnadas desse olhar infantil que nos permite extrair beleza do tecido áspero da existência – estão espalhadas ao longo de todo livro, o que torna a caminhada do leitor por suas 365 páginas uma aventura fascinante. A busca do herói se torna, aos poucos, nossa busca; e a iluminação, como o real de Rosa, não está na partida, nem na chegada: ela se apresenta pra gente é no meio da travessia.

Mas não adianta eu ficar aqui, falando pelos cotovelos. O melhor jeito de entender o que estou querendo dizer é percorrendo a trilha de Tudo de ilumina ao lado de Foer, Alex, Yankel e Brod. Depois disso, tenho certeza, você vai querer ler Extremamente Alto & Incrivelmente Perto e escrever para o Stephen Hawking.

yo no creo en las brujas, pero…

Julho 3, 2009 - 4 Responses

Há cerca de 30 dias, a Primeira Ministra do Ababelado Mundo, Vozda Konsciência, decretou oficialmente o fim do inferno astral no país, proibindo o excesso de reflexões profundas, bem como a instauração de crises existenciais no período de 04 de junho a 04 de julho de 2009, 2010, 2012 e assim sucessivamente, até o fim dos tempos.

A medida não agradou aos Homens Arcaicos que vivem na região mental do país. Liderados por Instinto, líder das forças de extrema direita do Cérebro, organizaram um movimento de oposição logo batizado de MSN (Movimento dos Sem Neurônios). Na lista de reivindicações, o movimento exigia: 1) o reconhecimento IMEDIATO do inferno astral como manifestação legítima do arcaísmo, religião popular no hemisfério direito; 2) o início IMEDIATO dos preparativos para o retorno de Saturno, que, de acordo com o MSN, terá início no ano que vem; 3) a leitura IMEDIATA de um apanhado das principais obras de Paulo Coelho, Lair Ribeiro e Deepak Chopra, além, é claro, da Bíblia.

Diante de negativas da Primeira Ministra, o MSN promoveu atentados psicossomáticos que atingiram o corpo social e a economia psicológica do Ababelado Mundo. As ações epidérmicas do grupo impactaram principalmente os hemisférios oriental e ocidental do rosto, deixando mortos e feridas (purulentas) que só começam a fenecer agora, às vésperas do 04 de julho.

A inteligência do cérebro está reunida desde a semana passada e organiza uma reação, que deve ser liderada pelas forças do córtex pré-frontal, com apoio hemisfério esquerdo. A idéia é bombardear bases estratégicas dos rebeldes com mísseis Vonnegut. O uso de Schopenhauer não foi descartado.