o fim da utopia

Outubro 6, 2008 - No Responses

“Berlin Ocidental, verão de 1967. Podia ser outro lugar, outro momento. Mas nossa história começa aqui. O filósofo Herbert Marcuse vai falar. Ele vive nos Estados Unidos. Veio especialmente para uma série de conferências. Título de seu trabalho: O Fim da Utopia.

A jovem platéia está intrigada. O que Marcuse está querendo dizer com isto? O filósofo começa explicando as razões do título. Utopia é um conjunto de idéias de transformação social, tidas como impossíveis. Idéias que, normalmente, prolongam uma série de condições existentes na construção de um mundo melhor.

Marcuse não queria falar de coisas impossíveis, muito menos prolongar o existente. Veio para pregar uma ruptura completa; gerando o fim da utopia.

“Todas as forças materiais e intelectuais que podem contribuir para realizar uma sociedade livre estão presentes no mundo de hoje. Se não atuam é porque a sociedade se mobiliza em peso contra a possibilidade de sua própria liberação. Mas uma situação desse tipo não é suficiente para chamar de utopia um projeto de transformação”.

Em seguida, o velho filósofo falou algo que é bastante conhecido dos teóricos do III Mundo. Não há um sábio, disse ele, mesmo um sábio burguês, que seja capaz de negar a evidência de que é possível acabar com a fome e a miséria através das forças atuais de produção. Isto só não acontece por causa da desorganização sócio-política do Planeta.

Estavam todos de acordo até aí. Marcuse avançou entretanto sua idéia nova que parece ter trazido especialmente para este momento. As verdadeiras mudanças só aconteceriam se houvesse a liberação de uma nova dimensão humana, se surgisse uma nova antropologia cujo objetivo fosse o de transformar as necessidades. Uma delas, vital, é a necessidade de liberdade e tudo o que ela implica.

Ao longo de quatro dias de discussão, Marcuse insistiria nesse tema. Parecia preocupado em precisar o que significa uma nova necessidade. O desenvolvimento das forças produtivas atingira tal nível que estava a exigir o despertar de novas necessidades à altura do momento. Mas quais seriam elas?

Quem acompanhasse toda a exposição não teria dificuldade em compreender o filósofo. Num primeiro lance, as novas necessidades poderiam ser entendidas como a simples negação dos valores que sustentam o sistema. Negação do princípio da produtividade, da competição, do conformismo.

No lugar desses valores carcomidos, entrariam a necessidade de paz, de tranqüilidade, de estar só consigo mesmo (ou com as pessoas amadas), de beleza, felicidade gratuita e de uma esfera particular.

Essas novas necessidades levariam a uma transformação total do mundo técnico. Cidades seriam reconstruídas, a natureza restaurada. O desvario da industrialização revisto de ponta a ponta. Atenção, advertia o filósofo: não se trata de uma regressão romântica a uma época anterior à técnica. Os benefícios da técnica só ficarão realmente visíveis quando se livrarem do capitalismo.

Faltava dizer que o socialismo existente no mundo não tinha realizado este projeto. Marcuse mostrou que a idéia do socialismo estava diretamente ligada ao desenvolvimento das forças produtivas e ao aumento da produtividade do trabalho. No instante em que surgiu, isto era justificável e necessário. Mas agora, não era mais essa a diferença entre uma sociedade livre e uma sociedade oprimida. Com pena de parecer ridículo, era preciso ter coragem para afirmar que a característica distinta de um mundo novo seria a dimensão estético-erótica – fórmula que sintetiza a convergência da técnica e da arte, do trabalho e do jogo.

Marcuse concluiu sua exposição afirmando que era preciso correr o risco de redefinir a liberdade de tal maneira que não pudesse ser confundida com nada do que aconteceu até agora. O novo motor da sociedade, já satisfeita materialmente, seriam aspirações liberadas, necessidades instintivas, inclinações espontâneas do ser humano.

E como essas coisas são utópicas apenas aparentemente, pois, no fundo, significam a negação histórico-social da ordem estabelecida, o filósofo conclamou todos a participarem de uma oposição realista e pragmática, livre de todo derrotismo, pois não era possível trair a liberdade emergente”.

[Trecho de "A Vida Alternativa: uma revolução do dia a dia", de Fernando Gabeira, publicado pela LP&M em 1985]

a fila e a delicatessen

Outubro 2, 2008 - No Responses

Depois da fila, a Delicatessen é o ponto mais alto de um evento de cinema. Se você conseguir ser notado por meia dúzia de seus pares num desses lugares-chave, dê-se por satisfeito e fique à vontade para voltar para casa. Esqueça o filme. Ele é acessório. Certifique-se apenas de ter anotado corretamente o nome do diretor e o título original da obra. No aconchego do lar, consulte o IMDB e faça, depois, uma busca a respeito num site estrangeiro. Leia uma crítica, mas seja objetivo: desconsidere nela tudo que for relevante e detenha-se nas frases de efeito, do tipo:

“O diretor, quando não resvala nos maneirismos e nas metáforas fáceis, constrói instantes de grande delicadeza”. Ou ainda: “Os planos seqüência, filmados com delicadeza ímpar, são o ponto alto do filme”.

Munido dessas informações, você estará devidamente preparado para pavonear-se.

Dica: sempre que puder, fale em delicadeza, afinal, você acha que o nome Delicatessen veio de onde, cara-pálida?

Para enriquecer sua reputação, basta usar as frases pesquisadas na entonação mais adequada à atmosfera da mesa. Entre os xiitas – aqueles que falam alto e rápido, em defesa de diretores como Nolan e Guy Ritchie – use a ironia e seja enfático: concentre-se em desqualificar opinião do rival.

Exemplo: “Guy Ritchie é muito bom pra quem tem os clipes da Madonna como principal referência”.

Dependendo do adversário, complemente citando um cânone: “Esse fedelho não seria nem continuista do Buñuel”. Essa estratégia, em geral, nunca falha, mas se estiver na dúvida, dê o golpe de misericórdia. De vez em quando, interrompa uma sentença – dessas indispensáveis para a conclusão de um raciocínio – para tomar um gole de café. O suspense tomará conta dos ouvintes, que vão atribuir essa tranqüilidade à segurança dos sábios. No próximo encontro, você nem precisará falar. Basta tomar café e fazer caras e bocas. A fama o precederá.

quando o carnaval chegar

Outubro 1, 2008 - No Responses

quem me vê sempre parado, distante garante que eu não sei sambar
tô me guardando pra quando o carnaval chegar
eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar
tô me guardando pra quando o carnaval chegar
eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar
tô me guardando pra quando o carnaval chegar
há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá
tô me guardando pra quando o carnaval chegar
e quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar
tô me guardando pra quando o carnaval chegar
e quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar
tô me guardando pra quando o carnaval chegar
eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
tô me guardando pra quando o carnaval chegar
eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar

 

aqui é melhor

aphorismus

Setembro 30, 2008 - No Responses

O mundo é cão, nós somos carne e osso: o segredo da vida está em fazer o osso morder o cão.

A louça suja é a prova do eterno retorno: lavar a louça ajuda a aceitar os ciclos da vida. 

O medo é o dedo do diabo.

da liquidez do carioca

Agosto 12, 2008 - No Responses

Recebi hoje um texto de um amigo. Tijucano de nascença e boa praça de crescença, esse cabra é uma das figuras que aprendi a querer bem no Rio de Janeiro. E o tal texto, encaminhado por ele a uma lista de discussão que acolhe paulistas, mineiros, gaúchos – brasileiros, enfim!  — dizia do Rio mesmo. Trata-se de uma crônica do paulista João Antônio, intitulada Carioca da Gema.

Com uma sutileza que escapou para a maioria do leitores que se manifestaram a respeito na polêmica lista, João Antônio avança, frase a frase, como quem palminha um terreno desconhecido, tentando compor sua imagem do carioca com os parcos elementos disponíveis. Reside aí, na verdade, a beleza mesma do texto: ela está nessa preocupação de deixar tudo incerto – como de fato é. Toda vez que se pega resvalando no clichê, o autor interrompe com um “mas isso é carimbo”. Ele parece saber que, quando se tenta falar do Rio, o mais fácil é cair na vala comum das frases feitas.

Ao descrever o carioca típico, ele começa: “Folgado, finório, malandreco, vive de férias. Não pode ver mulher bonita, perdulário, superficial e festivo até as vísceras”. E, de repente, ao perceber-se em falta, arremata: “Adjetivação vazia… E só idéia genérica, balela, não passa de carimbo”. Belo artifício esse do João Antônio. Talvez o único possível quando se tenta tocar a essência fugidia dessa cidade tão única.

Brotou daí, dos hiatos deixados propositalmente pelo autor, a polêmica que animou as discussões tal lista. A primeira resposta foi suscitada pelo parágrafo de abertura: “Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros”. Alegre? Perguntou um dos debatedores, mineiramente, antes de decretar: “Não conheço muitas cidades do Brasil, mas destas poucas o Rio é onde encontro mais pessoas mal-humoradas na rua — de cara amarrada, rosnando, prontas para começar brigas em qualquer lugar”.

Como estrangeiro, a princípio, senti-me forçado a concordar. De fato, o rosto do carioca denuncia, não raro, a amargura daqueles que têm no coração um espinho. Arrisco a dizer que esse incômodo nasce do atrito entre o Rio vivido e o Rio sonhado; entre o Rio Bossa e o Rio Funk; entre o Rio Ipanema e o Rio Rocinha; entre o Rio asfalto e o Rio favela.  A imagem que me vêm à cabeça quando penso nesses contrastes (e a imagem do Rio contraste também “é carimbo”) é a das placas tectônicas. Capazes de viver lado a lado por eras, basta um movimento brusco de uma das partes para gerar cataclismos horrendos – terremotos, tsunamis, o inferno.

É impossível não se apaixonar pelo Rio sonhado. A beleza dessa cidade cantada nos versos de Tom e Vinícius merece, sim, todo nosso amor. Ninguém poderá negar ao Rio o título de “cidade maravilhosa”. Deve-se prestar homenagens a esse Rio idílico da mesma forma como se reconhece a magnitude do Coliseu: mesmo em ruínas.

Ruínas, ruínas, ruínas. É disso que se trata o Rio de Janeiro: ruínas. Como as ruínas do Coliseu, a cultura carioca também foi um dia estrutura. Nesta cidade ergueu-se, no passado, talvez a cultura mais sólida do país. Estão aqui os principais monumentos da cultura brasileira. Até os grandes artistas que não nasceram por estas terras, elegeram a cidade como morada, tamanha a força centrípeta exercida por ela. Nenhuma cidade do país atraiu tantos os olhares. Não só de brasileiros, mas do mundo. Se há uma cultura brasileira ela está aqui, na síntese representada pelo carioca. As belezas do Rio foram exaltadas pelo mineiro Drummond, pela pernambucrania Clarice Lispector, pelo gaúcho Luís Fernando Veríssimo, pelo baiano Caetano e até pelo novaiorquíssimo Sinatra. Se há uma coisa que o mundo deve ao Rio é reconhecimento. E carinho.

Carinho que tem sido negado à cidade (e dá-lhe espinho no coração). “Mundo ingrato”, o carioca vitupera: “Depois de tudo que fizemos por eles, cravam-nos a faca!” Sim, sim, eles tem razão. O Brasil deu as costas pro Rio. Voltou seus olhos para Brasília e seu dinheiro para São Paulo. E Rio ficou aqui, com sua história e sua melancólica amargura.

Melancolia algo portuguesa, diria. Melancolia de quem teve o mundo na palma da mão e o deixou escapar entre os dedos. Melancolia de quem não consegue tocar a carruagem da vida porque não dá pra andar com tanta tralha na carroceria.  Enquanto o carioca fita o passado, o caminho do futuro cria mato e fica cada vez mais difícil avistar a trilha que leva ao porvir. O Rio perdeu o bonde da história.

O mundo negou ao Rio o que o Rio sempre ofereceu ao mundo: seu jeitinho. A geografia do Rio está cravada tão fundo na alma do carioca que até em seu modo de ser ele mimetiza as sinuosidades que caracterizam estas paragens. Assim como o Rio aprendeu a crescer, à maneira lusitana, em meio aos acidentes geográficos – os morros, as enseadas, as matas –, o carioca aprendeu a crescer com suas mazelas. Por traz dessa aparência de dureza, que se assemelha à rocha dos morros, o carioca é líquido como a água do mar. “Ah, se soubessem que para ser bem atendido em um bar basta sorrir pro garçom e gritar: ‘Ô, Chico, Tem como descolar aquela mesa?’”, explica um carioca da gema aos forasteiros inconformados. “E para cerveja vir gelada basta: ‘Amigão, traz aquela cerveja? Mas aquela gelada que só você descola, hein?’”.

Eis aí a liquidez oceânica do carioca. Como o mar, o Rio – e o carioca – é de uma beleza descomunal. Com suas sereias e seus cantos, o mar, à primeira vista, é um convite. Mas cuidado: pode ser um convite à morte. Se nos atirarmo-nos nele sem cautela, podemos ser tragados. Por outro lado, se aprendermos a entender seus ritmos, a dança das marés, o traçado das ondas… aí sim: o mar é bênção, faz-se doce, nos abraça. Jamais agrida o mar. Ele está farto de tanto lixo e maus tratos. E não tente “tirar onda” do mar se você não for parte dele: ele irá repeli-lo. Em direção à rocha.

À medida que o tempo passa, aumenta minha desconfiança de que é justamente essa liquidez que corrói as estruturas do Rio (sua sólida cultura), assim como as bases de Veneza estão sendo devoradas pela água de seus canais. É dessa complacência representada pela liquidez que brota o musgo que cobre as pedras e deixa no ar este cheiro de podridão. Às vezes, faz-se necessário construir diques capazes de conter toda essa fúria aquática, que a tudo invade, devora, dilui.

Mas como controlar o que nos dá sentido? Como impor barreiras ao mar que somos sem perder nossa essência? Como salvar Veneza sem privá-la dos os canais que fazem dela o que ela é?

Acredito que a essa é a questão que o carioca precisa responder para tirar o espinho de seu coração.

Mas também isso, possivelmente, é carimbo.

como nasce um nome próprio?

Julho 31, 2008 - One Response

Quer saber como nasce um nome próprio? Pergunte ao outro: pergunte a quem dá nome. Essa é a obviedade escondida em cada cena do último filme de Murilo Salles. Nome próprio a gente não escolhe: a gente ganha. Recebe, aceita, acostuma-se e, em geral, aprende a gostar. Essa sutileza é importante para entender a história de Camila.

Na primeira cena de Nome Próprio o que vemos, a princípio, é o interior de um apartamento em processo de desmanche. Estantes cheias de livros, que são arremessados ao chão; CDs, que são enfiados apressadamente numa caixa; um computador, violentamente desplugado. Quem desmonta o apartamento é um homem: é o que podemos adivinhar entre enquadramentos e distorções de uma câmera nervosa que acompanha um personagem idem. Demora até que possamos conhecer, finalmente, a dona da história. Encolhida no chão, sobre um colchão velho, está Camila. Ela chora. Está nua.

A conjugação de perda (da casa, do namorado, do amigo, da amiga), nudez e choro será, a partir daí, uma constante em Nome Próprio. E será essa dinâmica o principal motor criativo de nossa escritora. Os textos de Camila são ecos do mundo em um vazio interior. É que nossa heroína parece desprovida de subjetividade. Seu caminhar – cambaleante – não é em direção ao auto-conhecimento. Não se trata descobrir quem se é, pois isso não tem a menor importância. O que importa é construir uma persona capaz de mediar essa relação entre um eu incompreensível e um outro inacessível para poder, dessa forma, sentir-se, finalmente, em casa – no corpo, no mundo, na vida. Por trás de uma aparente sensibilidade artística e de uma proclamada intensidade, esconde-se uma incapacidade de lidar com os silêncios, com os fluxos da existência, com o indizível.

Escrever um diário é uma maneira de moldar uma imagem si para si mesmo; falar de si em um blog é pedir a ajuda do outro nessa empreitada; é um pedido de socorro. A relação de amor e ódio entre Camila e seus leitores nasce da constatação de que, também eles, não são capazes dessa hercúlea tarefa. Pelo menos, não com a urgência que ela exige.

“Eu preciso de um homem que me faça calar a boca”, ela decreta, em determinado momento, clamando por alguém forte o bastante para lidar com seja-lá-o-que-ela-for. Ao desejar alguém que lhe “cale a boca” Camila pede alguém que tome para si o fardo que é dela; ela pede alguém que a defina. Por um instante, ela acredita ter encontrado em Daniel, seu admirador secreto, o esperado salvador. Mas Daniel não era esse homem forte. Ele apenas percebera o óbvio em Camila e usara a seu favor. O jogo de esconde-esconde estabelecido na troca de e-mails entre os dois – e sobretudo as lacunas desse contato – foram fundamentais na construção do Daniel-fictício pelo qual o Daniel-Daniel sabia que Camila se apaixonaria. O que ele sabia também é que, como toda construção, aquela também sofreria a ação do tempo. Daí a necessidade de pular fora, colocando um ponto-final do romance e devolvendo a Camila os fardos que lhe cabiam.

É desse conjunto de equívocos e desencontros que brota, aos poucos, a persona procurada por Camila. É a partir dessa imagem projetada – mais pelos atos que pelos discursos – que Camila receberá do mundo um nome próprio. A última cena do filme mostra duas Camilas diante de um espelho. Elas fitam o espelho/câmera em busca de uma resposta. Do lado de cá, estamos nós, o público, testemunhas da caminhada da protagonista até ali. Camila pede uma resposta e recebe de volta um reflexo. E um nome. Ela aceita.

O Batman de Nolan

Julho 29, 2008 - No Responses

Christopher Nolan recebeu uma missão de Hollywood, há mais ou mais três anos: recuperar Batman, para que o personagem continuasse “gerando dividendos”. Conceituado, com sua obra situada no confortável terreno do cerebralismo-pop – o mesmo habitado por diretores como Darren Aronofsky e David Fincher -, Nolan tinha a moral necessária para receber dos produtores norte-americanos uma boa dose de autonomia e alguns milhões de dólares. Pronto: tinha em suas mãos dinheiro e um personagem poderoso, que poderia ser pintado com as cores que ele quisesse. Ele escolheu o preto e o branco.

As intenções de Nolan com relação à série foram explicitadas em Batman Begins: a idéia era devolver ao herói mais idiossincrático dos quadrinhos o seu caráter sombrio; o primeiro passo era fazê-lo percorrer o caminho de volta do universo fantasioso no qual passara a habitar ao longo dos anos para o território de Nolan: a realidade. Porque, sim, para Nolan, a realidade é o parâmetro mor. Essencialista, ele busca a verdade encoberta, a substância do real, a materialidade. É assim desde Amnésia. Basta analisar a percurso do protagonista, Leonard, em busca de si mesmo: trata-se de um exercício de engenharia reversa, conduzido por Nolan, sob o olhar atento do expectador. O que está feito, está feito: é fato. É a partir dos fatos que reconstruímos a memória do personagem de Guy Pearce; e é com base nos fatos que ele se reconstrói. Aos poucos, a dispersão começa a ser desfeita. À medida que o filme passa – à medida que conhecemos melhor não o passado, mas o futuro de Nolan – a verdade é revelada: o que existe é invenção. O que existe é a necessidade de um sentido, de uma ordem. Ordem que, se não for alcançável, deve der construída, para que possamos assim assentar nossos pés sobre bases firmes. Mesmo que elas sejam erguidas sobre nossa fantasia. Eis a realidade de Nolan.

Como alguém que procura bases sólidas, Nolan tinha em Batman um grande desafio. Como lidar com aquele universo tão novo pra ele? Como aceitar a fantasia? Como vesti-la sem cair no ridículo? A resposta: inventando um contexto familiar. A saída era seguir no caminho oposto àquele trilhado por Tim Burton, nos dois primeiros – e bem sucedidos – filmes da série. Em vez de nos apresentar a história de Batman, Nolan resolveu nos apresentar a história de Bruce Wayne. Começou nessa escolha a destruição do herói.

Uma vez escolhido o caminho, era preciso colocar essa engrenagem em movimento. Esse start do processo estava na criação de uma justificativa para os super-poderes de Batman. Para isso, nada como recorrer a um sentimento humano, demasiadamente humano: o ódio. O Batman de Nolan não faz o bem por amor ao bem. Não há nele o altruísmo característico dos paladinos. Batman é mau.  Seu maior inimigo são seus demônios interiores. Hoje, anos depois de ter assistido ao primeiro filme, posso estabelecer um paralelo tardio – para fins meramente ilustrativos – com o protagonista da série Dexter, o psicopata que sacia seus instintos matando criminosos e ajudando a polícia. Como Dexter, Batman projeta seus demônios nos outros. Ao combater o mal do mundo, Batman afirma: eu sou o mal do mundo. Eu sou o ódio.

O que faz do Coringa um antagonista tão assustador é a afirmação dessa verdade: nós somos iguais, somos feitos da mesma coisa, saímos do mesmo ventre, aceite esse fato. Coringa é o Batman sem superego. É por isso que ele exerce um papel estratégico nesse processo de construção do Cavaleiro das Trevas: ele veio trazer a verdade. Só ele, com sua aversão aos planos que tentam ordenar o caos, é capaz de devolver as pessoas à realidade: não existe paz, tranqüilidade, felicidade, perfeição: o que existe é o caos. O que existem são cachorros correndo atrás de carros. Para um Batman que esperava ter encontrado no em Harvey Dent o good guy que poria as coisas eixos, Coringa mostra o outra face da moeda, o Coringa é a carta que burla as regras do jogo. Heroísmo e vilania, bem e mal, yin e yang, herói e anti-herói: é tudo a mesma coisa. O Coringa é o Tyler Durden de Bruce Wayne, é a voz que diz que não há mais nada a perder. Porque nunca houve nada. “Ou você morre como herói ou vive o suficiente para se tornar o vilão”. A frase do Harvey Dent-Duas Caras resume a mensagem de Nolan neste filme: não existem heróis (mas, se necessário, podemos inventá-los).

sobre intolerância

Julho 17, 2008 - No Responses

Tava lendo esses dias uma matéria da Economist sobre os “like-minded neighbours“, dos EUA. São bairros que estão sendo formados apenas por pessoas que têm afinidades ideológicas. Republicanos com republicanos, democratas com democratas, ambientalistas com ambientalistas. A matéria questionava até que ponto essa postura era interessante para a democracia, indagando se isso não seria um sintoma de intolerância, de uma capacidade cada vez menor de dialogar, debater e, até mesmo, conviver com pessoas que pensam diferente da gente.
 
É engraçado, mas a superoferta de canais de informação torna possível hoje que uma pessoa passe a vida inteira lendo apenas sobre coisas que nas quais já acredita. Pensar mesmo, pouco importa: importa é encontrar pessoas que ratifiquem nossas posições. Triste isso.

Uma das coisas que mais me orgulho é de conseguir ter amigos e me relacionar com pessoas que pensam diferente de mim. É mais difícil mesmo. Mas também é mais enriquecedor.

meio que sem razão

Junho 13, 2008 - No Responses

Meu Santo Antônio eu vou fazer uma promessa
Para São João e para São Pedro me ajudar
Solta balão, pula fogueira a noite inteira,
Com meu amor até o dia clarear
Olha o terreiro como está iluminado
Está todo enfeitado para a festa começar
O meu São Jorge com a espada a brilhar
Ah! Meu Deus dessa maneira como é
Que eu vou ficar.

Atenção: japoneses bolinam

Junho 3, 2008 - No Responses

Aqui está a prova…

“Featuring a bizarre image of a man touching a woman on a train, it warns you to “Beware of Perverts” (Chikan chuui), with “Dangerous Persons are in this Area” below. A truly bizarre message and image that will cause confusion and funny reactions among Japanese who see it”.

A história foi mais ou menos assim. Helena, minha colega de trabalho, contava sua experiência traumática numa das raras incursões suas num coletivo. De acordo com ela, um homem de aparência sombria começou a espiá-la no ponto de ônibus, deixando-a desconfortável. Quando ela embarcou, lá estava o cara, seguindo-a. Nisso um simpático – e gigantesco – operário da construção civil perguntou ao cobrador onde ficava um determinado lugar, ao que ela atendeu solícita: “Ah, moço, eu sei onde é, aviso quando passarmos por lá”. A idéia foi boa. Funcionou. Diante da recente amizade dela com o armário, o perseguidor sentiu-se intimidado e desceu no ponto seguinte.

“Dei sorte, escapei de um assalto”, ela disse. “Assalto nada, Helena, o cara queria é te bulinar!”. “Eu heim, acho que você que é meio pervertido, fica vendo bolinação onde não tem”. “Eu não, não sou japonês”, argumentei, convicto. Ninguém entendeu.

“Como assim? O que tem a ver uma coisa com a outra?”.

“Ué, japonês bolina!”.

“Como?”

“Ah, vão dizer que não sabiam disso? É prática comum no Japão. Eles adoram bolinar mulheres no metrô. O vagão das mulheres foi inventado em Tóquio por conta disso, porque japoneses bolinam”.

“Ei, Vivi, ouve essa”, disse Helena, dirigindo-se à recepcionista do andar, que estava sentada atrás de um balcão. “Ele tá dizendo que japonês bolina, sabia disso?”.

“Ah, é?, perguntou a menina.

“Mas bolina mesmo, gente, tem até bares que simulam vagões de trem e são freqüentados por homens que querem bolinar e mulheres que querem ser bolinadas”.

A conversa seguiu neste nível e, empolgados, não percebemos que alguém se aproximava, em busca de informação.

“Oi… eu queria saber onde fica a sala 803”, perguntou o recém chegado.

Olhamos todos ao mesmo tempo para o sujeito e adivinhem nossa cara de surpresa quando identificamos o cabelinho escorrido e os olhos puxados. Foram dois segundos de silêncio mortal até a frase bombástica!

“Calma aí, eu sou chinês!”

O constrangimento era nítido, mas é como diz o ditado: o que é um peido pra quem está cagado?

“Ah, bom! Ainda bem, já estava me protegendo aqui!”.

“É, chinês tudo bem, quem bolina é japonês, hahaha, hihihi”. 

Depois de muito riso, oh, muita alegria, o chinesinho foi embora, sob olhares de desconfiança. E nós, vítimas em potencial, ficamos pensando: quais as chances de uma coincidência dessas se repetir?

Por via das dúvidas, toda vez que vou contar essa história pra alguém, olho primeiro para os lados. Sabe-se lá, vai que aparece um bolinador…