Li essa semana este artigo gigantesco sobre o Steve Jobs. O autor, Kieran Healy, um sociólogo, usa o conceito weberiano de liderança carismática para pensar a atuação do Jobs à frente da Apple e a maneira como ele era admirado por seus empregados, apesar de ser um notório carrasco. Entre outras coisas, ele mostra de que maneira essa figura do líder carismático assume na cabeça das pessoas a imagem quase mística do escolhido. A origem mesmo da palavra carisma está associada à liderança religiosa: significa “o dom da graça divina”. Esse líder é visto como alguém guiado por uma meta superior, algo que além do alcance dos simples mortais (é uma espécie de Lyon: com visão além do alcance); alguém que, por isso mesmo, teria o direito de subverter as regras, alguém de quem até mesmo a crueldade seria perdoável, em nome de uma causa maior. (Todo mundo já viu essas história, né? Dá pra pensar em diversos líderes com essas características, de Martin Luther King a Fidel, de Ghandi a Hitler).
“The stories of how brutal he could be on the people around him — employees, competitors, and everyone else — are legion, and they’re not apocryphal. He could be deeply dehumanizing and belittling to the people around him … As a leader of people, you have to respect how much he (and more importantly, his teams) accomplished. But I struggle with some of the ways that he led, and how they affected good people.” The combination of inner vision, contempt for rules, and the ability to moblize others results in a leadership style that is at once rebellious and autocratic. It’s better to be a pirate than join the navy, but the Pirate Captain is in charge.
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Embora o foco do artigo sejam os empregados da Apple, os subordinados de Steve Jobs, a análise vai além. A questão que a gente está discutindo aqui na lista, sobre a exploração de chineses e africanos para a produção do iPhone, também é abordada:
“This is a well-recognized problem with technological utopias: goods that are simple and elegant to use are often difficult and dangerous to make. A wide gap may open between the consumers and the producers of beautiful pieces of personal technology: it’s an elegant, creative, meaningful future for me, but a lifetime toiling on a Foxconn production line for thee”.
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Agora, espaço para uma digressão.
Eu tenho pensando muito nessa coisa toda da tecnologia já faz um tempinho. Em como isso pode ou não mudar o mundo. Em como pode aproximar pessoas e estimular a participação, a cidadania. Mas esse outro lado da moeda, o dos trabalhadores da Foxconn,me assombra a cada dia com mais força. É que pra mim é muito claro que todo esse avanço tecnológico só foi possível graças ao capitalismo mesmo. E, pior, graças ao seu caráter selvagem: o que move a inovação de verdade é a vontade de ganhar dinheiro, sim. Ou, mais sub-repticiamente, o orgulho: o desejo de ser melhor, de se destacar, de superar o outro. A porra do o ego, enfim! (O capitalismo é todo baseado no ego. Aliás, o ocidente é baseado no ego).
A maioria das pessoas, considera o iPhone um item caro. Mas se a gente considerar a extração de metal, as linhas de montagem, o desrespeito às leis trabalhistas (e à dignidade, de maneira geral), o preço que nós – brasileiros de classe média do Rio de Janeiro – pagamos por ele é absolutamente ridículo. Se o mundo fosse justo, deveria custar muito mais. Muita gente morre pra gente dar uma tuitada. Nós – todos nós aqui – escolhemos isso, todo dia. Isso é meio existencialista, sartreano: ao escolhermos algo para nós mesmos – um modo de vida, um hábito de consumo, uma posição política – escolhemos o mesmo para o mundo. O Michel tem razão, sim, quando diz que ao comprarmos um iPhone nos aprovamos o trabalho semi-escravo dos chineses da Foxconn. E aprovamos o comunismo esquizofrênico da China. (Mas o reverso da moeda é que os escravos da Foxconn também aprovam: em tese – e aí está a o realismo cruel do existencialismo – eles poderiam optar pela morte).
Quando eu me dei conta de tudo isso, me vi diante de uma encruzilhada: ou abria mão de tudo e realmente abdicava desses confortos em favor de algo que eu realmente acreditasse, nem que isso custasse (ou valesse?) a minha vida (e, sim, acho que essa escolha tem que ser radical), ou aprendia lidar com esse fato. Aí eu decidi lidar com isso. Até porque, do ponto de vista histórico, sempre houve exploração. A democracia grega – toda glória de Athenas! – estava assentada sobre o trabalho dos escravos. E todo mundo sabe disso, mas faz de conta que não lembra quando fala em democracia.
Tenho muitas esperanças em relação a essa nova lógica do compartilhamento, da criação coletiva. Acho inspiradora a Primavera Árabe, com todo mundo organizando manifestação via Facebook. Ou o Occupy Wall Street, com todo mundo fazendo suas transmissões em tempo real, via iPhone, denunciando a violência da democracia norte-americana pro mundo todo. Mas enquanto as linhas de montagem tiverem necessidade de seres “com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor” para operá-las, isso tudo não vai passar de oba-oba pra maioria que acompanha, retuíta e “curte no feice”. Sim, porque os únicos que serão realmente transformados por isso serão aqueles que fizeram a escolha, aqueles que estão lá, aqueles que estão apanhando, aqueles que estão sendo presos. Porque só a ação existe: só a experiência é, só a experiência inspira os outros, só a experiência transforma as pessoas.
Enfim, eu acredito imensamente no potencial libertador da tecnologia. Mas acho que, no estágio em que se encontra, ela ainda depende da exploração do homem para existir. A tecnologia só poderá nos libertar realmente no dia em que não for preciso apertar mais nenhum botão, no dia que a fábrica da Foxconn não precisar de mais nenhum chinês. O ápice da utopia tecnológica são os robôs: só a robótica liberta.
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A partir daqui, o papo teria que entrar no campo da ficção científica. Então acho melhor parar e resumir esse blá blá blá todo em três pontos:
1) Por mais difícil que seja reconhecer, a ganância é o combustível da inovação.
2) Toda criação é destrutiva: alguma coisa (seja ela natureza, forma, conceito ou sistema) ou alguém (seja ele um operário ou um mártir) sempre tem que perecer pra outra, nova, surgir. (Os orientais estavam certos: vida e morte são complementares).
3) O capitalismo fez muito pelo bem-estar das pessoas, mas muito disso se deve ao comunismo que estava ali, como contraponto: é por isso que o OWS é importante.
OFF-TOPIC
Já que ao falar da Apple falamos da relação de amor que os usuários estabelecem com a marca, segue uma entrevista com a Mulher Maçã.