três sobre a liberdade

janeiro 13, 2012 - Deixe seu recado!

“Creio que a liberdade se torna uma questão efetiva quando há uma carência prática dela. Quando uma pessoa quer fazer alguma coisa, e algo a impede, o problema da liberdade vem à tona. Essa aspiração à liberdade está sempre ligada a alguma interdição, alguma restrição ou algum obstáculo. É isso o que se chama de libertação de: libertar-se da violência, de um regime que nos oprime, da doença, da pobreza, do nosso corpo enfim (o corpo como o cárcere da alma, visto que o corpo não deixa a alma se emancipar). Mas também há liberdade para, isto é, o problema da liberdade surge quando queremos alcançar algo, realizarmo-nos, e nos perguntamos se isso é possível”.
Boris Groys

“A interdição de certas coisas é por vezes tão encantadora que não se tem como não fazê-las. É por isso que todo tipo de obrigação me é cara: porque nos possibilita a alegria da transgressão. Se não houvesse nenhum mandamento neste mundo, nenhuma obrigação, eu morreria, pereceria de inanição, me estropiaria de tédio. Que me incitem, pois, que me obriguem e tutelem. Acho absolutamente adorável. No fim, quem decide sou eu e ninguém mais. Sempre enfureço um pouquinho a testa enrugada da lei; depois trato de acalmá-la”.
Trecho de Jacob Von Gunter, de Robert Walser

“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.
Cecília Meireles

steve jobs, os chineses, a robótica e a mulher maçã

outubro 20, 2011 - Uma resposta

Li essa semana este artigo gigantesco sobre o Steve Jobs. O autor, Kieran Healy, um sociólogo, usa o conceito weberiano de liderança carismática para pensar a atuação do Jobs à frente da Apple e a maneira como ele era admirado por seus empregados, apesar de ser um notório carrasco. Entre outras coisas, ele mostra de que maneira essa figura do líder carismático assume na cabeça das pessoas a imagem quase mística do escolhido. A origem mesmo da palavra carisma está associada à liderança religiosa: significa “o dom da graça divina”. Esse líder é visto como alguém guiado por uma meta superior, algo que além do alcance dos simples mortais (é uma espécie de Lyon: com visão além do alcance); alguém que, por isso mesmo, teria o direito de subverter as regras, alguém de quem até mesmo a crueldade seria perdoável, em nome de uma causa maior. (Todo mundo já viu essas história, né? Dá pra pensar em diversos líderes com essas características, de Martin Luther King a Fidel, de Ghandi a Hitler).

“The stories of how brutal he could be on the people around him — employees, competitors, and everyone else — are legion, and they’re not apocryphal. He could be deeply dehumanizing and belittling to the people around him … As a leader of people, you have to respect how much he (and more importantly, his teams) accomplished. But I struggle with some of the ways that he led, and how they affected good people.” The combination of inner vision, contempt for rules, and the ability to moblize others results in a leadership style that is at once rebellious and autocratic. It’s better to be a pirate than join the navy, but the Pirate Captain is in charge.

***

Embora o foco do artigo sejam os empregados da Apple, os subordinados de Steve Jobs, a análise vai além. A questão que a gente está discutindo aqui na lista, sobre a exploração de chineses e africanos para a produção do iPhone, também é abordada:

“This is a well-recognized problem with technological utopias: goods that are simple and elegant to use are often difficult and dangerous to make. A wide gap may open between the consumers and the producers of beautiful pieces of personal technology: it’s an elegant, creative, meaningful future for me, but a lifetime toiling on a Foxconn production line for thee”.

***

Agora, espaço para uma digressão.

Eu tenho pensando muito nessa coisa toda da tecnologia já faz um tempinho. Em como isso pode ou não mudar o mundo. Em como pode aproximar pessoas e estimular a participação, a cidadania. Mas esse outro lado da moeda, o dos trabalhadores da Foxconn,me assombra a cada dia com mais força. É que pra mim é muito claro que todo esse avanço tecnológico só foi possível graças ao capitalismo mesmo. E, pior, graças ao seu caráter selvagem: o que move a inovação de verdade é a vontade de ganhar dinheiro, sim. Ou, mais sub-repticiamente, o orgulho: o desejo de ser melhor, de se destacar, de superar o outro. A porra do o ego, enfim! (O capitalismo é todo baseado no ego. Aliás, o ocidente é baseado no ego).

A maioria das pessoas, considera o iPhone um item caro. Mas se a gente considerar a extração de metal, as linhas de montagem, o desrespeito às leis trabalhistas (e à dignidade, de maneira geral), o preço que nós – brasileiros de classe média do Rio de Janeiro – pagamos por ele é absolutamente ridículo. Se o mundo fosse justo, deveria custar muito mais. Muita gente morre pra gente dar uma tuitada. Nós – todos nós aqui – escolhemos isso, todo dia. Isso é meio existencialista, sartreano: ao escolhermos algo para nós mesmos – um modo de vida, um hábito de consumo, uma posição política – escolhemos o mesmo para o mundo. O Michel tem razão, sim, quando diz que ao comprarmos um iPhone nos aprovamos o trabalho semi-escravo dos chineses da Foxconn. E aprovamos o comunismo esquizofrênico da China. (Mas o reverso da moeda é que os escravos da Foxconn também aprovam: em tese – e aí está a o realismo cruel do existencialismo – eles poderiam optar pela morte).

Quando eu me dei conta de tudo isso, me vi diante de uma encruzilhada: ou abria mão de tudo e realmente abdicava desses confortos em favor de algo que eu realmente acreditasse, nem que isso custasse (ou valesse?) a minha vida (e, sim, acho que essa escolha tem que ser radical), ou aprendia lidar com esse fato. Aí eu decidi lidar com isso. Até porque, do ponto de vista histórico, sempre houve exploração. A democracia grega – toda glória de Athenas! – estava assentada sobre o trabalho dos escravos. E todo mundo sabe disso, mas faz de conta que não lembra quando fala em democracia.

Tenho muitas esperanças em relação a essa nova lógica do compartilhamento, da criação coletiva. Acho inspiradora a Primavera Árabe, com todo mundo organizando manifestação via Facebook. Ou o Occupy Wall Street, com todo mundo fazendo suas transmissões em tempo real, via iPhone, denunciando a violência da democracia norte-americana pro mundo todo. Mas enquanto as linhas de montagem tiverem necessidade de seres “com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor” para operá-las, isso tudo não vai passar de oba-oba pra maioria que acompanha, retuíta e “curte no feice”. Sim, porque os únicos que serão realmente transformados por isso serão aqueles que fizeram a escolha, aqueles que estão lá, aqueles que estão apanhando, aqueles que estão sendo presos. Porque só a ação existe: só a experiência é, só a experiência inspira os outros, só a experiência transforma as pessoas.

Enfim, eu acredito imensamente no potencial libertador da tecnologia. Mas acho que, no estágio em que se encontra, ela ainda depende da exploração do homem para existir. A tecnologia só poderá nos libertar realmente no dia em que não for preciso apertar mais nenhum botão, no dia que a fábrica da Foxconn não precisar de mais nenhum chinês. O ápice da utopia tecnológica são os robôs: só a robótica liberta.

***

A partir daqui, o papo teria que entrar no campo da ficção científica. Então acho melhor parar e resumir esse blá blá blá todo em três pontos:

1) Por mais difícil que seja reconhecer, a ganância é o combustível da inovação.

2) Toda criação é destrutiva: alguma coisa (seja ela natureza, forma, conceito ou sistema) ou alguém (seja ele um operário ou um mártir) sempre tem que perecer pra outra, nova, surgir. (Os orientais estavam certos: vida e morte são complementares).

3) O capitalismo fez muito pelo bem-estar das pessoas, mas muito disso se deve ao comunismo que estava ali, como contraponto: é por isso que o OWS é importante.

OFF-TOPIC

Já que ao falar da Apple falamos da relação de amor que os usuários estabelecem com a marca, segue uma entrevista com a Mulher Maçã.

eu só queria falar de videogame

outubro 20, 2011 - Deixe seu recado!

Durante esse longo inverno em que passei sem escrever uma linha sequer que não fosse sob encomenda, pensei bastante sobre isso, de não conseguir escrever.

De tanto mentar, cheguei a uma conclusão (que, por ora, me basta): para escrever é preciso ter certezas. Podem até ser certezas pontuais. Pode ser até a certeza quanto à incerteza (subterfúgio algo taoísta que muito me atrai). O que importa é que ela exista. Fora da certeza, só existe a barbárie. Não dizem que o termo bárbaro tem origem na maneira como os estrangeiros balbuciavam e gaguejavam ao falar o grego? Então. É por aí. Fora da certeza só existe gagueira.

***

E é aquela coisa: toda certeza está baseada, em última instância, numa crença. (Taí o Hume, que não me deixa mentir sozinho). E como ando meio incrédulo ultimamente, já viu, né?

***

Há muito, muito tempo, quando eu ainda alimentava esperanças, essa idéia da gagueira do pensamento me fascinou. Topei com ela nos Diálogos, do Deleuze, e fiquei meio que obcecado. É que sempre tive um pensamento fragmentário, inconclusivo, cheio de pontas soltas. Na época eu não me dava conta, mas muito disso tinha a ver menos com uma característica do meu pensamento do que com minha preguiça e desorganização mesmo. Porque é aquilo: o caos é a desordem natural das coisas. A ordem, apolínea como ela só, pede organização, método, disciplina. Tudo que nunca tive!

O que a gente chama de mundo civilizado só existe para por ordem no caos. Ordenar é dar sentido, é construir, é empilhar tijolos. Só o que é ordenado, sistematizado, encadeado pode existir para o pensamento. Criar, nada mais é do que organizar o caos de uma certa maneira (tanto melhor se for à sua maneira, né fascistinha?). O caos, por si só, não significa nada. É não ser. E o não ser não é. Ponto.

A primeira impressão que tive ao ler Deleuze na juventude é de que a filosofia dele privilegiava a espontaneidade do pensamento, o pipocar algo alucinado das idéias. Hoje eu sei que, longe disso: há por traz de todo pensamento deleuziano um método extremamente rigoroso. Criar conceitos – ou, simplesmente, filosofar – exige disciplina e organização.

(Com meu pensamento indisciplinado, posso dizer que não se poderia esperar outra coisa de um capricorniano!).

Foi por isso que eu abandonei o curso de filosofia. Porque, ao contrário do que pensam os leigos, filosofar é tão difícil quanto construir prédios. A filosofia é a engenharia do pensamento.

***

Antes que me apedrejem: eu não disse que a filosofia deleuziana não é libertadora não, viu? Só disse que pra construí-la, ele meio que se enclausurou (aquela coisa de não viajar, de dar aulas por anos na mesma universidade, de ter poucos e bons amigos). E talvez isso explique a fascinação dele por Espinosa, o excomungado. Não poucas vezes o filósofo francês mencionou com admiração a maneira como Espinosa compensava a debilidade física com um pensamento extremamente forte, livre e vivo. E, ó paí: essa filosofia da vida e da liberdade nasceu do método geométrico. Irônico, não?

***

Eu não queria escrever sobre filosofia, quando comecei este texto. Queria falar de videogame.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.