Vejo a escolha do Rio como cidade sede das Olimpíadas de 2016 como uma ótima oportunidade para a construção de uma agenda política no Brasil, a única coisa capaz de nos fazer transcender o sectarismo político, que se acirra de dois em dois anos e nos condena a um trabalho de Sísifo, que precisa ser eternamente refeito, em vão.
As suspeitas quanto às promessas de prosperidade que vêm do anúncio da vitória do Rio de Janeiro são, de fato, pertinentes, especialmente se levamos em conta a história do país, aparentemente marcada por saltos e rupturas que parecem apenas mascarar a realidade em nome de um “país do futuro” que nunca chega. Sim, nós temos problemas de corrupção. Sim, muita gente está mais preocupada com os benefícios políticos que a Olimpíadas podem trazer do que com os possíveis benefícios, que dependem muito mais do trabalho, da cooperação e da capacidade de planejamento do que dos discursos que serviram para costurar essa vitória. Nada disso justifica satisfatoriamente o desprezo pelos jogos, afinal, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa…
Só posso atribuir a rejeição de uma determinada parcela de cariocas e brasileiros à realização das Olimpíadas no Rio a duas causas: ou ela está ligada ao sectarismo ao qual me referi no começo, que os faz crer que esta é uma vitória deste ou daquele governo e, por isso, deve ser diminuída para não resultar em força política; ou é fruto do bom (?) e velho “complexo de vira-lata”, lindamente identificado por Nelson Rodrigues.
Daqui até as Olimpíadas, sete anos nos separam. O sucesso ou o fracasso dessa empreitada vai depender de como o país (e aí incluo as instâncias políticas, institucionais, midiáticas e, sobretudo, sociais) vão se articular em torno dessa agenda comum. Trata-se de um evento grande demais para ficar sob responsabilidade exclusiva do poder público. Sem o envolvimento da sociedade, o evento será um fracasso. E ninguém terá o direito de reclamar.
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Complexo de vira-latas
por Nelson Rodrigues
Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: – “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto: – não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?
Eis a verdade, amigos: – desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: – “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.
E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: – é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: – o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: – se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.
Mas vejamos: – o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: – eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: – sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: – não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.
A pura, a santa verdade é a seguinte: – qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: – temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: – “O que vem a ser isso?”. Eu explico.
Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: – o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: – para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

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