Sobre liberdade, leveza e crises existenciais

 “Parmênides respondeu: a leveza é positiva, o peso é negativo.

Ele estava certo ou errado? Essa é a questão. A única certeza é: a oposição peso/leveza é a mais misteriosa, a mais ambígua de todas” 

O trecho acima, encravado no final do primeiro capítulo de um livro, foi um dos responsáveis pela minha captura. Quando o tive em minhas mãos pela primeira vez, aos 17 anos,  A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, o livro caiu em mim como uma bomba. Era uma época complexa. Estava, então, literalmente, em trânsito. Ainda não tinha me adaptado ao novo corpo (a adolescência é o desterro da infância), ainda não tinha me adaptado à nova cidade (mudara para Guarapari dois anos antes)e ainda não tinha me adaptado às relações estáveis… Ainda assim, em meio a tantas incertezas (comuns a todo viajante existencial), devorei o livro em ininterruptas oito horas: rasguei a madrugada deixando-me invadir pelas complexidades daquela(s) história(s). Eu sabia que havia algo importante ali, mas sabia também que muitos dos sentidos possíveis escapavam à alma ainda não formada. Como bem explica a Clarice (Lispector), na advertência que antecede o primeiro capítulo de A Paixão Segundo G.H., pessoas de “alma formada” são: “Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar”. Na época, embora buscasse as coisas com avidez, muitas vezes sem aproveitar devidamente o percurso, eu encontrava algo por meio de seu oposto. Buscava queimar etapas, recuperando o que, na minha cabeça, parecia tempo perdido: os 15 anos em que eu vira o objeto livro como mero desperdício de tempo. Durante um longo período, que antecedeu minha entrada na faculdade, pipoquei de leitura em leitura, afundando em teorias, sensações e imagens poéticas as quais eu nunca fruía plenamente. Só mais tarde eu entenderia que essa perseguição caótica – essa busca proustiana pelo tempo perdido – era, ela mesma, uma maneira de formar almas. Alguns anos depois, grande parte dessas leituras ressurgiu renovada, radiante. O livro do Kundera estava entre as que se tornariam recorrente. E a oposição peso/leveza seria um eterno motivo de inquietação. Durante muito tempo, busquei a leveza. Fazia tudo que estivesse ao meu alcance para escapar aos vínculos, laços e raízes. Era mais leve manter-se afastado de responsabilidades, abster-se de tomar decisões, agir irrefletidamente. Aos poucos, no entanto, o peso se impunha – e a leveza tornava-se insustentável. Optei então, meio que sem querer, por aceitar um pouco desse peso que começara a ganhar mais e mais espaço. Entrei na faculdade, fixei-me num emprego, deixei de lado a rebeldia infrutífera (tornei-me bom filho), comecei a namorar… e essa trajetória culminou na prestação de concurso público que me colocou no lugar onde estou hoje.

O peso disso que poderíamos chamar “vida adulta”, sob certos aspectos, guarda em si o seu oposto, numa espécie de yin-yang no qual é impossível precisar qual dos opostos nos atravessa. Sinto saudades da leveza, mas hoje sinto-me cada vez menos capaz da coragem que ela exige. Leveza, acredito, tem a ver com ser livre… e quem se lembra do final de Ilha das Flores sabe quão complexo esse conceito pode ser, afinal: “O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores numa posição posterior aos porcos na prioridade de escolha de alimentos é o fato de não terem dinheiro nem dono. Os humanos se diferenciam dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por serem livres. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

 

Uma resposta

  1. curioso como sempre me senti mais atraído pelas mulheres mais bem servidas de carnes, mas me casei com duas magrelas (uma de cada vez!). não me arrependo, mas o tipo “filé de borboleta” continua não estando no topo da cadeia alimentar. como diz aquele cantor baiano meio esquisitão, “a gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo”.

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