sobre um tanto de coisa

 

Às vezes eu não sei ao certo o que é pior: se a carência de idéias ou se a overdose delas. Nos últimos meses, sofri do primeiro problema; na última semana, fui vítima do segundo. A euforia de ter novamente um blogue bem quisto (por mim) fez com que tudo no mundo virasse motivo de postagem. Obviamente, as idéias foram se acumulando, se sobrepondo, canibalizando umas às outras. Quixotescamente, comecei a estabelecer nexos mais ou menos inusitados entre assuntos cada vez mais díspares. Em pouco tempo tinha diante de mim um exército incomensurável de moinhos de vento.

Hoje, num sábado chuvoso, decidi ir à batalha. Organizei uma lista de músicas esquisitas e pus pra tocar no media player. Olhei pra minha Dulcinéia e falei: “Vá procurar o que fazer, querida! Tenho uma guerra pela frente”.

E cá estou eu, na cama, cabelos desgrenhados ainda, escrevendo algo que eu não sei ao certo onde vai dar. Tudo isso ao som de Mallu Magalhães. Por falar nisso, vamos começar a batalha por ela, que tem a aparência mais inofensiva.

Ao contrário dos MySpace Rats, eu demorei a conhecer essa menina. Coincidentemente, a primeira vez que a ouvi Tchubaruba foi pouco depois de ter assistido a Juno, aquele filme indie par excellence que eu, ao contrário de muita gente, achei bem melhor que Pequena Miss Sunshine (embora as propostas sejam diferentes e a única coisa que os aproxime de fato seja a veia sundanciana cooptada: loser movies adotados pela Academia e reconhecidos com indicações aos Oscar).

(Bem, eu tava falando da Mallu Magalhães, né? Okey, okey, tenham calma, a gente já volta a esse assunto. Falemos de Juno, por ora. É um moinho interessante também. Como disse acima, Juno só tem a veia sundanciana em comum com Miss Sunshine. São propostas diferentes. E abordagens diferentes. Miss Sunshine falava do tema sundanciano clássico: a decadente família norte-americana. O assunto aparece em filmes como Felicidade, Eu, você e todos nós, O tempo de cada um e mais uma infinidade de outros títulos que, de tão parecidos, tenho a impressão de que fazem parte do “grande romance americano”, que as pessoas desistiram de escrever para retratar no cinema. Em suma, Sundance já estava me dando nos nervos. Aí Pequena Miss Sunshine apareceu, tratando daquela mesma família desestruturada de tantos outros filmes. Só que em vez da melancolia pseudo-profunda, o filme escolheu o caminho do humor pastelão. Voilà! Caiu no gosto do populacho! A multidão de comedores de pipoca começou a olhar para a programação do cinema do Segundo Caderno e levantar dúvidas impensáveis noutros tempos, como por exemplo: “Amor… o que você prefere, Homem Aranha 18 ou esse Pequena Miss Sunshine?”. O filme ficou em cartaz no cinemão por quase 6 meses no Rio. Um milagre! Nunca uma cria de Sundance alcançara feito semelhante sem ter por traz, no mínimo, um diretor da Warner Independent (produtora que é, por natureza, um paradoxo). Aí, como, se não bastasse essa surpresa, no ano seguinte (este), Juno recebe várias indicações ao Oscar. E vai além de Miss Sunshine! Além da tradicional família desestruturada, há dois temas explosivos: gravidez na adolescência e aborto. Como escapar da pieguice dramática (ou do olhar moralista que só permite a abordagem desses temas se houver, no fim, uma punição exemplar)? A alternativa encontrada, em Juno, foi a da ironia. Só que, ao andar nos trilhos da ironia, corre-se o risco de descarrilar e cair no despenhadeiro do cinismo, geralmente um triste fim para o cinema que sabe que existe humanidade além das luzes e sombras da telona. O roteiro de Juno destila ironia em suas linhas, mas a câmera de Jason Reitman desvenda cada milímetro de insegurança, dúvida e medo por traz de cada frase ácida, de cada gesto descolado. Ao contrário de Miss Sunshine – onde a reflexão exige uma operação mais cerebral para acontecer, pois a construção dos personagens tem um quê de esquemática –, Juno toca ao fazer ver, sem que se precise pensar no que se está vendo para extrair qualquer sentido: Juno percorre o caminho do sentimento. E eu gosto desse caminho. No entanto, por mais que tenha cá minhas ressalvas em relação a Miss Sunshine, acho que o filme teve um papel importantíssimo, que deve ser reconhecido: ele ajudou a tornar a estética sundanciana mais palatável e mais popular entre o grande público: minha esperança é que o movimento iniciado com esse filme culmine na invasão do cinemão (na linha Kinoplex) pelos filmes pseudo-alternativos. Isso faria com que o cineminha (na linha Estação) tivesse cada vez mais necessidade de abrir espaço para o realmente alternativo, do cinema tailandês ao midnight movie).

Mas dizíamos de Mallu Magalhães. O que me chamou atenção nessa menina, a princípio, foi aquele jeitinho indie-folk de compor e tocar, tão presente em Juno (daí a relação). É como se a menina estivesse a meio do caminho entre Bob Dylan e Belle & Sebastian (em termos de referência, ninguém está falando genialidade aqui). Até aí tudo bem. Se fosse só isso, ela teria ganhado de mim o selo “bom para dias melancólicos e sexo suave debaixo do edredom”. Mas aí veio a curiosidade e a descoberta: Mallu Magalhães tem 15 anos. E faz música, mais ou menos, desde os 13! Vá lá, isso não faz dela nenhum Mozart, mas a qualidade de suas composições a coloca, no mínimo, a léguas de distância, por exemplo, da Sandy! A minha aflição toda foi: que conjunção astral, cultural, tecnológica ou, simplesmente, econômica permitiu o surgimento dessa mina?! Várias questões brotaram como ramificações desse pensamento. Uma delas foi: qual o papel da Internet nesse processo? Sim, porque Mallu não apenas surgiu no My Space, como é óbvio que boa parte do ecletismo de suas referências tem a ver com a facilidade que a Internet oferece pra que se consuma hoje música feita em praticamente qualquer época, em praticamente qualquer parte. Impossível negar que isso tem um impacto determinante na formação do gosto das pessoas. Tendências podem ser reforçadas com uma simples busca no e-mule ou com uma troca de idéias num fórum de discussão sobre, sei lá, british rock ou soul! Pensem no que a aliança entre Last FM, Youtube e Bittorrent pode fazer hoje na formação de qualquer pessoa que tenha o mínimo interesse em música ou cinema? É algo que, antigamente, só era possível se você morasse em Londres ou Nova York. Parafraseando Jorge Furtado: o “lixo” rejeitado pela indústria cultural está hoje disponível para os seres humanos da Ilha das Flores! Com um computador e uma conexão banda larga ninguém mais está condenado a ter de consumir Ivete Sangalo e Celine Dion por falta de opção! A oportunidade multiplica o talento! Daí o sucesso de gente como Mallu Magalhães, Vanguart e Arctic Monkeys! É lindo!

Sim, mas eu disse que a descoberta de Mallu Magalhães me fez pensar em várias coisas. A outra questão foi: será que alguém com 15 anos tem mesmo capacidade de lidar com tanta informação? Quanto a Mallu, não sei o que dizer. Nas poucas entrevistas que vi dela ela me pareceu apenas uma adolescente comum, até um pouco deslumbrada com o sucesso repentino. Seu gosto apurado não muda a natureza: ela é ainda uma adolescente, com todo caminhão de incertezas e inseguranças que essa época assegura a qualquer ser humano normal. Essa reflexão foi agravada com a leitura da matéria “Canções pra viver mais”, que saiu na Rolling Stone Brasil do mês passado. Trata-se de uma matéria extensa, sobre um adolescente porto-alegrense que, sob vários aspectos, tem uma trajetória parecida à da jovem paulista. Os dois tiveram acesso, bem cedo, à música de qualidade; os dois tinham senso crítico apurado e talentos artísticos; e os dois e usavam a internet para consumir cultura, conhecer pessoas e divulgar seus trabalhos. Só que Mallu converteu isso em sucesso. Yoñlu pirou o cabeção e tirou a própria vida com auxílio técnico de um fórum de discussão sobre suicídio, hospedado na mesma Internet na qual ele divulgava suas obras e suas idéias. Qual a diferença entre os dois? Por que uma nos dá essa imagem radiante, de menina prodígio, e o outro nos deu essa imagem trágica (e hoje nada glamorosa) do suicídio? O que é preciso fazer pra que tenhamos, no futuro, mais Mallus e menos Yoñlus? Eu não sei, mas gostaria.

Mas tem uma coisa que precisa ficar clara nessa discussão toda: a internet não é o vilão dessa história. Por mais que possua aberrações como pedofilia ou fóruns onde se discute as 10 melhores maneiras para se cortar os pulsos, a internet bem mais lugares pra se descobrir sobre Motown ou Wong Kar Wai, assim como espaços fantásticos como o Museun of Broken Relationships, que eu descobri lendo o Rataplas

É essa ênfase nos contras – que geralmente tem mais a ver com as pessoas ou com o sistema do que com a ferramenta em si – que dá margem ao surgimento de idéias bizarras, como a da Sociedade dos Autores da Inglaterra, que reúne cerca de 8.500 autores ingleses, que acenaram com a possibilidade de que a pirataria de livros (os PDFs que tanto amamos) acabaria com a literatura. Partindo desse raciocínio, surgiram propostas estúpidas, como a do financiamento estatal da literatura, ou melhor, dos ESCRITORES. É assim: o Estado pagaria um salário para os escritores profissionais, para que eles pudessem continuar escrevendo sem ser afetados pela maligna máfia da pirataria. Apesar de liberal (o que em alguns casos é um problema), o Very British Dude colocou em seu blogue algumas objeções interessantes à probosta da intelectualha. Talvez a mais forte delas seja: como garantir que este “fundo” de apoio não serviria para privilegiar uma minoria de peixinhos que, muitas vezes, teria seu ofício garantido mais por suas relações com este ou aquele grupo do governo (ou da sociedade) do que por seu talento? Pensem na política de patrocínio estatal (via Lei Rouanet) que, hoje, é a única coisa que torna a indústria cinematográfica brasileira viável? Qualquer um que acompanhe esse movimento sabe que, para cada novidade, para cada diretor estreante que recebe 300 mil, há 5 ou 10 privilegiados recebendo milhões para toda e qualquer produção medíocre proposta. Pensem em Cacá Diegues, Bruno Barreto, Hector Babenco e a velha corja de cineastas que há anos sobrevive das tetas do governo. E pensem na avalanche de jovens cineastas que sai das faculdades de cinema de Rio e São Paulo, ano após anos, e, mal consegue apoio pra produzir um curta – que dirá emplacar um longa numa sala comercial!

Na literatura, o projeto Amores Expressos, que distribuiu R$ 1.2 milhão (quase metade originado de renúncias fiscais possibilitadas pela Lei Rouanet) entre 16 novos escritores brasileiros para produção de um livro de contos ambientado em diversas cidades do mundo deu origem a uma interessante polêmica algum tempo atrás. A questão era: até que ponto é justo que o dinheiro do contribuinte seja utilizado para financiar projetos que, muitas vezes, têm mais base no interesse deste ou daquele grupo do que no interesse público, de fato. Incentivar a produção artística é sim um papel do estado, mas até que ponto esse processo tem sido justo hoje em dia? Quem determina o valor das obras que merecem ser oferecidas ao grande público? Será que a opinião do público não deveria ser levada em conta, ao menos como contraponto à percepção da crítica especializada (ou dos amigos)? Será que não caberia um processo mais claro de seleção pública para esse tipo de projeto? Será que o papel do Estado não deveria estar mais no fomento e menos no patrocínio. Pra mim, nos últimos tempos, essa tem sido a grande questão. Creio que o Estado faria mais incentivando o desenvolvimento da literatura entre os jovens, promovendo oficinas, ampliando bibliotecas e viabilizando o acesso à internet em banda larga, do que patrocinando publicações que terão como destino o velho circulo vicioso dos bibliófilos.  O mesmo vale para o cinema. Os medalhões deveriam estar envolvidos na criação de uma indústria cinematográfica no Brasil. Ao Estado, caberia fomentar a produção independente, o desenvolvimento do gosto (por meio de acesso a obras clássicas do cinema nacional e mundial) e a criação de eficientes canais de distribuição, capazes de levar essa produção independente às salas de cinema do país, de Quixeramobim a Getúlio Vargas. A internet, nesse contexto, seria um bom meio para se identificar o potencial comercial de uma obra e os nichos a serem explorados. Isso facilitaria o trabalho tanto do público quanto do mercado. Além de mitigar essa lógica perniciosa dos favorecimentos.

Um bom exemplo de política estatal equivocada é a TV Brasil. O governo investiu pesado na criação de algo que, em tese, seria um contraponto à hegemonia da grande mídia (Globo, Record, Folha de São Paulo, Estadão e afins). O resultado é um tiro no pé: mais uma TV chapa branca que tenta competir com a TV privada – nos mesmos moldes da TV privada – aplicando mal o dinheiro público. Mal porque a superioridade técnica daquelas que seriam – hipoteticamente – as concorrentes da TV Brasil é tão superior que a TV estatal será feira por poucos e para poucos, tendo quase nada a acrescentar. Mais uma vez, esse dinheiro todo seria melhor aplicado no fomento à produção audiovisual brasileira realmente independente. Em vez de criar um novo canal de TV, o Estado poderia ter utilizado, por exemplo, os Pontos de Cultura para promover a produção de vídeos, documentários, reportagens, vídeo clipes e curtas de ficção e não-ficção, entre infinitas outras coisas, pelo país a fora. Em vez de criar uma TV pública para escoar essa produção, poderia forçar as TVs privadas – que todo mundo esquece que são concessões públicas – a oferecerem parte de seu precioso tempo para veicular a nata dessa produção, que teria o grosso de sua divulgação concentrada na Internet, em algo como um youtubão da produção independente brasileira. Isso seria inovar, isso seria dar voz às minorias, isso seria empoderamento, isso seria TV pública. Em vez de tomar esse caminho, o governo faz todo um alvoroço em torno de uma TV que é, hoje, um misto de Radiobrás e TVE, o que faz com que a mediocridade daquela macule a grandiosidade desta, entregando à população algo de quinta categoria. Em vez de investir na reinvenção do modelo televisivo – nitidamente ameaçado pelas possibilidades oferecidas pela internet e pela TV digital – o governo investe num formato ultrapassado, à beira da agonia. E faz isso com o meu, o seu, o nosso dinheiro.

Por mais que à primeira vista não pareça, todos os assuntos abordados aqui têm algum tipo de relação. Essa relação, em geral, tem a ver com as possibilidades que as novas tecnologias oferecem à multiplicação dos talentos, com o potencial do alternativo e com saber usar o mercado a nosso favor. Espero que aos ababelados de plantão essas conexões não pareçam tão esdrúxulas.

This is it.

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