Da arte de ler sinopses

 

Onze horas da manhã de sábado. La mujer dorme. Yo cá estou, apreciando a película Vespas Assassinas no Universal Channel. Bom filme pra TV. Aquele tipo que você pode assistir enquanto cozinha, joga Winning Eleven ou escreve um textículo pro blogue. A história é simples. O exército americano abandona numa cidadezinha do México uma “estranha carga”. Trata-se de um vespeiro. Mas não é qualquer vespeiro: é um ninho de vespas alienígenas-mutantes-amaldiçoadas ou something like that (o filme não explicou isso ainda, o único cientista envolvido no caso é um mexicano metido a latin lover que trabalha num galpão de madeira repleto de objetos e, aparentemente, muito quente). Além de construírem seus vespeiros com “human bones”, as vespas têm aquela estranha mania, típica dos seres-bizarros-dos-filmes-B: elas usam o corpo humano para depositar ovos, larvas ou qualquer tipo de viscosidade nauseante que possa – num esforço da imaginação – dar origem a novos seres bizarros. É assim com o excelente Alien e com o péssimo A Experiência, por exemplo. Essa premissa é interessante, pois garante que, em algum momento, teremos uma cena escatológica, com estômagos sendo terrivelmente rompidos, com direito a sangue, tripas, crateras e tudo mais que seja do (mal) gosto do diretor.

Acho que só estou assistindo a esse filme para compensar o fato de que ontem a preguiça (dammit!) me venceu novamente, e não tive coragem de encarar a chuva para ir ao Estação apreciar um belíssimo espécime dos midnight movies, que atende pelo nome de Blood Car (ou simplemente Carro a Sangue, na ótima tradução). Tenham a bondade de ler esta adorável sinopse do filme:

“Em um futuro próximo, a gasolina chega a preços astronômicos, quase US$ 40 o litro. Um homem, Archie Andrews, ecologista professor de escola primária, tenta descobrir uma fonte alternativa de combustível. Sem querer ele encontra uma solução: sangue!”.

É ou não é brilhante? Sim, sim, é brilhante. Tenho um fascínio quase doentio pelas sinopses de filmes fantásticos. É preciso uma capacidade de abstração absurda para fazê-las. São quase tão complexas quanto o horóscopo diário dos jornais. Quase tão enigmáticas como uma parágrafo do I-Ching. Até hoje ninguém tentou, mas creio que dá pra ler a sorte das pessoas nas sinopses de filmes fantásticos. Faça o teste: quando estiver em dúvida, numa daquelas encruzilhadas da vida, quando você está prestes a tomar uma decisão crucial, dessas que mudam tudo – não procure a cartomante: procure a locadora mais próxima. Pense numa pergunta, escolha aleatoriamente três caixas de DVD e leia as sinopses. A primeira dirá do passado, a segunda do presente, a terceira do futuro. Como diria Nelson Rodrigues: é batata!
Façamos um teste. Digamos que você está apaixonado pela mulher do seu melhor amigo. Você gosta dele, entende?, mas a namorada do cara está no rol das indescritivelmente belas. Como se não bastasse, ela sofre de miopia crônica e vez ou outra dá mole pra você. O que fazer? Pergunte às sinopses, vejamos o que elas têm a dizer.

Primeira Sinopse: o passado

O Creme: “Um homem descobre um creme facial que o faz ficar irresistível aos outros a sua volta, mas ele descobre que isso gera conseqüências…”

Interpretação: reparem no trecho final da sinopse, pois costuma ser o mais significativo. A idéia central, no entanto, é: você é um tremendo cara-de-pau, capaz de dar em cima da mulher do melhor amigo. Isso é horrendo, mas as mulheres gostam de cabras dessa estirpe, isso o torna irresistível… mas você vai descobrir que isso “gera conseqüências”.

Segunda sinopse: o presente

Morram, zumbis FDP: “Toole é um serial-killer que viaja ao redor do mundo à procura de sua esposa seqüestrada pela Barão Nefarious, que planeja conquistar o mundo transformando todos em escravos zumbis”.

Interpretação: esta parece difícil, mas não se engane. A mensagem está ali. O serial-killer em questão é você. Putanheiro, cara-de-pau, canalha romântico de marca maior, você pipoca por aí, pegando geral, mas no fundo está em busca de sua esposa – sua costelinha! -, que foi seqüestrada melo malvado Barão Nefarious, que é uma versão nefasta do ratinho Cérebro, do desenho. Pense rápido agora: se você é o serial-killer romântico, quem são “a esposa” e o “barão” nesse triângulo amoroso? Simples, não?

Terceira sinopse: o futuro

Estação Final: “Uma jovem enfermeira está a bordo do último metrô da noite no momento em que o trem pára subitamente no meio do túnel. Quando todos à sua volta começam a ser perseguidos e assassinados por membros de um culto religioso, Karen e um grupo de passageiros precisam lutar por sua sobrevivência”.

Interpretação: essa é fácil. Pense no objeto metrô. Trata-se de um dos mais seguros meios de transporte de nosso tempo. Anda sobre trilhos, velocidade constante. Nele você sempre sabe exatamente de onde vem e para onde vai. Depois de casar com a mulher de seu amigo, você não é mais o serial-killer da sinopse anterior, mas tornou-se uma cândida enfermeira. Você está feliz com o rumo que sua vida está tomando. Até que o trem (que representa sua vida tranqüila) pára e é invadido por assassinos membros de um culto religioso. Ah-há! Lembra-se do Barão, que queria transformar todo mundo em zumbi pra dominar o mundo? Consegue perceber a relação entre isso e um culto religioso? Então, rapaz! Se insistir com essa história, você terá sérios problemas com seu amigo fanático: são as conseqüências lá da primeira sinopse.

Conselho: se você pegar a mulher do cara, vai ser bom, mas vai dar merda. Fique esperto.

Eu disse que funcionava! Mande aí sua dúvida existencial que eu faço a interpretação. As primeiras consultas são pra calibrar meus dons sobrenaturais, portanto, é cortesia da casa. Aproveite. “Pegue o teléfono e ligue djá!!!”.

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Ah! O filme das vespas acabou. Pra quem ficou curioso quanto à origem das vespas, de impressionante veneno, informo que elas eram criadas pelos “selvagens” nativos, para guardar as tumbas. Foram trazidas para a civilização (mexicana) por Cortés. Nosso heróico protagonista descobriu isso quando lhe foi repassado, por um padre, o diário de um monge que presenciara, a long time ago, um ataque do “fogo negro”, nome que, em latim, designa justamente as vespas psycho killers, quest que cest. Ninguém explicou onde – diabos! – foram parar os militares americanos.

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