aquele que escrevi na semana passada e esqueci de postar

“acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido”

Leminski


Andei meio sustenido nos últimos dias. Quase bemol. Achei que ia abandonar o blog também. Mas não, hoje deu na telha de escrever algo assim, bem non sense. Meu último post foi teve tanto sense que fiquei perdido em meio a tanta informação incomplete. Aí decidi escrever este poste aqui, só pra demarcar território, porque está nublado, porque hoje é um dia perdido entre um feriado e outro, porque o chefe não apareceu ainda e já são 10 horas.

Tenho lido um tanto esses últimos dias. Talvez por isso, depois de três meses de planejamento, tomei coragem no último sábado e acordei cedo pra me refestelar entre as traças e fungos de um desses maravilhosos sebos que a gente encontra sem muita dificuldade no centro do Rio. Primeiro parei lá na Casa do Saber, aquele que fica ali pertinho do Saara (numa rua que não sei o nome, porque não sou tão carioca assim). Estava com la mujer e, por conta disso, tive de sair meio às pressas do lugar, deveras irritado. É que, vez ou outra, ela é acometida por um ataque súbito de paranóia delirante (o que ela faz com um charme todo especial, é importante dizer). Desta vez, a crise foi desencadeada por um mosquito suspeito.

“Amor, você não vai acreditar”, ela começou. (E, de fato, não acreditei). “Eu vi um mosquito da dengue aqui! Pousou na minha perna! Era todo listradinho, preto e branco”. Mosquitos havia, é verdade. E não eram poucos. Quem conhece o centro do Rio de Janeiro sabe que o lugar é propício a todo tipo de praga – como ratos, pombos, moscas, mosquitos, pregadores evangélicos e flamenguistas. Mas daí a crer num ataque de mosquitos dengosos justamente NAQUELE sábado… não! Ainda que fosse verdade, eu me negava a aceitar. Não, não e não. Seria muita sacanagem. Fiquei puto. Deixei os quatro livros que pré-selecionara criteriosamente nos 15 minutos que estive sentando num banquinho de madeira, diante da estante de livros de cinema – e fui embora, arrastando la mujer pelo braço.

“Você tá bravo comigo?”

“Não, amor”.

“Ah… porque era um mosquito da dengue mesmo, eu juro”.

“Hum-rum”.

“Você não ta acreditando, né? Quando a gente chegar em casa eu vou procurar na Internet, pra você ver”.

“Hum-rum”.

Estive a um isso da desistência. Um isso! Mas a certeza de que não conseguiria madrugar novamente no sábado seguinte – nem no próximo, nem no posterior –, criei coragem, engoli o choro e fiz um pouco de piada, enquanto arrastava la mujer para o outro lado da Presidente Vargas. Em meio à crise, lembrei de um sebo que eu visitara há mais ou menos dois anos, logo que cheguei ao Rio. Na época, eu estava hospedado no Hotel Guanabara, aquele na esquina da Vargas com a Rio Branco e a única coisa que eu lembrava é que estabelecimento em questão ficava na rua logo atrás (restava saber em que ponto). Burramente, fui até o Guanabara, meu ponto de referência, e contornei-o para encontrar o sebo mais ou menos à altura do ponto onde eu atravessara a avenida. Mas vá lá, foi o tempo que eu precisava pra me acalmar – e convencer a Grasi de que não havia foco de dengue naquela região.
Mais tranqüilo, fiquei feliz ao saber que a pequena mina de ouro que eu não pudera garimpar dois anos antes ainda estava lá. Intacta. Guardava uma bela meia dúzia de livros do Scott Fitzgerald, o de O Grande Gatsby. Havia lá outras coisas que acabei levando também, mas eu queria falar mesmo é do Fitzgerald.

Fiquei pensando na razão desses livros não terem sido vendidos. Estavam lá todos o que folheei há dois anos. E mais alguns. O preço até caíra. De R$ 12 para R$ nuns casos 15. De R$ 10 para R$ 8 em outros. Será quem ninguém sabia de quem se tratava?!

É possível que essa fosse uma das razões. A outra é que muita gente não deve nem gostar mesmo. Acho que o Fitzgerald está no rol dos escritores norte-americanos demais. O cara diz muito de uma época específica da sociedade “deles”. Faz parte da chamada “geração perdida”, que compreende o período da lei seca, passando pelo crack da bolsa em 1929. O cenário no qual se passam os romances de Fitzgerald é o da elite desse período. Há ali todas aquelas coisas que ajudam a tornar famoso um escritor que tem nas futilidades do estilo rich and famous sua matéria prima: ironia, crítica e inteligência.

Só que o Fitzgerald tinha algo mais. Costumava dizer que se não fosse sua obsessão pela riqueza e pela vida dos ricos teria escrito uma obra completamente diferente. That’s it. Era esse o pulo do gato. Fitzgerald era o bom e velho outkast, um estrangeiro. Por maior que fosse seu fascínio, Scott nunca seria um deles. Entre meus preconceitos criteriosos está este: toda boa literatura nasce da inadequação. Kafka, Conrad, Cortázar, Machado, Clarice: todos habitam mundos aos quais não pertencem essencialmente. Pessoas felizes, satisfeitas com seus tempos e espaços, podem escrever. Mas não fazem literatura. Ponto.

É isso que tem me encantado na obra do Fitzgerald. Não me interessa o que há de crítica social ou historiografia em seus livros, mas o que há de deformação. Deformação perceptiva que vira forma, vira estética, vira estilo. E é nisso que Fitzgerald se faz único, no estilo, na construção de atmosferas. Leio literatura pra isso, para experimentar outras atmosferas. Pra pensar, leio outras coisas.

E é isso. Se você ficou interessado no Fitzgerald, procure outro sebo, vá à biblioteca ou compre na Travessa. Se for meu amigo (Burger?), pede aí que eu empresto. Mas leia.

One Response

  1. ok, o compromisso tá por escrito: tás e devendo, mesmo que eprestado, um fitzgerald.

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