
Estou lendo “Enigmas da Culpa”, livro de ensaio do Moacyr Scliar. Dele, até então, só lera contos, além de uma edição de “O exército de um homem só”, na adolescência. Gostei muito deste último, embora tenha achado tanto quanto esquisito. Na época eu não lidava bem com aquele surrealismo todo. (Acho que minha adolescência não foi muito imaginativa. Demorei a entender, por exemplo, por que consideravam “Cem anos de solidão” um “livro sério” e Garcia Marques um autor digno de Nobel. Aquela coisa toda de ciganos, animais que procriam alucinadamente, ao sabor da foda de seus donos, meninas comedoras de barro e meninos com rabo de porco. Sei não. Tudo muito louco para compor um livro sério. Mesmo sem entender essa classificação, curti o livro. E isso foi bom. Mais velho, reli pelo menos quatro vezes, sempre beirando as lágrimas num ou noutro parágrafo).
“O exército de um homem só” eu não tornei a ler. Estranhamente, coloquei o Scliar entre os escritores classificados – mui particularmente – como “bueno, pero no mucho”. “Enigmas da culpa” mudou essa percepção, embora trate-se de um ensaio, não de um romance, o que, de certa forma, depõe contra o Scliar.
Sim, eu sei que isso é uma babaquice, mas o que fazer se meus padrões são rígidos?
Falo de meus padrões literários, claro. Ordinariamente, sou uma pessoa tranqüila com relação a essa coisa de padrões. Respeito os transgressores. Admiro-os, até. Alguns de meus heróis morreram de overdose, outros, tuberculosos (houve um tempo que a doença era o estigma do transgressor!), uma terceira parte de cirrose hepática. Há um selvagem dentro de mim. Mas meu selvagem é como o “bom selvagem” do Rousseu: um mito. É que, em geral, costumo andar na linha. Cumpro as regras, entende? Sou bom filho, na medida do possível (minhas mentiras são sinceras). Declaro meu imposto de renda regularmente. Adoro o conceito de desobediência civil, mas vocês não vão me encontrar na Marcha da Maconha… essas coisas.
Bom, a esta altura você deve estar se perguntando: “Sim, mas onde entra ‘Enigmas da culpa’ nessa conversa?”. Ora, caro leitor: ele está justo aí, no tom confessional deste texto, na raison d’être mesma do blogue! Afinal, se falo de minha quiçá equivocada avaliação depreciativa da obra do Scliar – se faço isso não é por outro motivo que não a purgação de culpa! Não a culpa tê-lo posto na terceira divisão de minhas preferências literárias, mas a de tê-lo condenado sem avaliar devidamente as evidências. Ora, “O exército de um homem só” não é o que poderíamos chamar de “sua obra mais significativa”. Logo, eu pequei toda vez que alguém me perguntava “Gosta do Scliar?”, ao que eu respondia, “não muito”, com aquele arzinho blasé. Mea culpa, mea máxima culpa. Eu não conhecia o Scliar, okey? Eu menti! Menti sinceramente, mas menti.
O fato é que agora, diante deste ensaio, é-me impossível encará-lo de outra forma que não esta:
“Já leu alguma coisa do Scliar?”
“Li, cara! Os ensaios do cara são geeeee-niiiiiiiiiiiiiiii-aaaaais!!!”
Se o interlocutor não tiver a perspicácia de perguntar de quais ensaios estou falando, tenho a certeza de que passará a ter o escritor gaúcho em alta conta (modéstia à parte, gozo de certa credibilidade entre meus pares).
Sim, eu sei, caro inquisidor: trata-se ainda de uma mentira. Mas – vá lá – acredite em mim! O texto do cara é digno de confiança (embora eu não o seja)! Além disso, pense comigo: só o extremo da empolgação para compensar os longos anos que o deixei na prateleira dos “bueno, pero no mucho”. Trata-se de uma posição inglória, repousar ao lado de escritores já bem gastos, como Jorge Amado, Balzac e todos os franceses…
Como a vida é essencialmente absurda, preciso, como a maioria dos mortais, de ilhas de racionalidade, situações que me permitam encontrar explicações para situações meramente casuísticas. Por exemplo: o que me fez comprar o livro do Scliar sem indicação, resenha ou notinhas da Veja? O Caderno Mais!, é claro. Mas não foi em razão de nenhuma crítica da intelectualha uspiana, mas um texto do próprio Scliar que me fez reconsiderar!
Li o artigo em questão sem saber quem o escrevera e o misto de erudição e senso de humor me conquistou, prendendo-me de primeira à última linha. Quis então saber quem tinha escrito aquilo, daí o interesse despertado pela obra ensaísta do médico, que me encarou da estante do sebo na figura de “Enigmas da Culpa”, com sua discretíssima capa amarela. Eu precisava ler Scliar direito: isso era flato.
Ôpa, desculpa, eu disse flato? Foi mal. É que o texto em questão tratava disso mesmo: do peido, da bufa: chamava-se “O ‘pum’ da cultura”.
O título foi como um soco no estômago. Tinha comido uma feijoada… minto, minto: ao ler a manchete “O ‘pum’ da cultura” imaginei tratar-se de uma crítica aos equívocos do MinC. Mas, não; não era isso.
Creio que a melhor maneira de falar dos dotes de ensaísta de Scliar, é apresentando esse texto, que é belo preâmbulo para “Enigmas da Culpa”. Transcrevo o artigo logo abaixo, tenha a bondade de ler (se achar demasiado extenso, imprima para ler no banheiro: poucos textos se adéquam tão perfeitamente ambiente da privada).
O PUM DA CULTURA
A notícia, na Folha do último dia 28, era pequena, mas chamativa: uma funcionária, demitida por “exceder-se em flatulência” no local de trabalho, venceu demanda judicial interposta na 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Os magistrados decidiram pela readmissão da empregada e pelo pagamento de R$ 10 mil por danos morais.
Atrás desse curioso episódio está longa história, que se baseia numa função fisiológica absolutamente normal, mas nem por isso menos perturbadora. Flatulência é a emissão de gases intestinais, uma coisa que poderia passar despercebida, como é a expiração.
Mas essa, em geral, não é ruidosa -a não ser quando a pessoa ronca, o que não raro é fonte de conflito entre marido e mulher- e é sem odor, a não ser quando há mau hálito, o que sempre resulta em constrangimento. Já no flato, existe uma complexa mistura de gases, alguns dos quais, os compostos sulfurosos, principalmente, produzem aquele característico odor, que há milênios ofende narinas.
Ah, sim, e o ruído. A última linha de “O Inferno”, de Dante, parte da “Divina Comédia” [editora 34], diz “Ed elli avea del cul fatto trombetta”/ “E ele usou o traseiro como trombeta”, o que pode parecer um exagero, mas traduz a indignação das pessoas.
Não só Dante se entregou ao exercício dessa forma de escatologia literária. Na clássica comédia “As Nuvens” [ed. 34], de Aristófanes [comediógrafo grego do século 5º a.C. que se celebrizou pela irreverência], há um diálogo no qual Sócrates sustenta que, quando as nuvens colidem, se produz um forte ruído, ou seja, o trovão.
Para explicar o fenômeno, compara-as com o homem que, tendo comido muito, produz gases. E pergunta: “Se o ventre humano, que é relativamente pequeno, faz tanto barulho, como não o farão as nuvens, que são muito maiores?”.
Falta grave: Nas “Mil e uma Noites” [ed. Globo], lemos a história de um homem que, tendo soltado gases durante a cerimônia de seu próprio casamento, não vê outra solução senão fugir para o exterior. Em “Gargântua e Pantagruel” [ed. Itatiaia], Rabelais assim descreve a ressurreição de Epistémon: “De repente Epistémon começou a respirar, depois abriu os olhos, depois bocejou, depois espirrou, depois soltou um grande peido. Ao que disse Panurge: “Agora está certamente curado’”.
Em “Contos de Cantuária” [T.A. Queiroz], de Geoffrey Chaucer, autor inglês do século 14, o flato é usado como agressão. O conquistador Absolom está tentando roubar um beijo da trêfega Alison, mulher do carpinteiro Nicholas. Na escura noite, sem quase nada enxergar, aproxima-se da janela da casa e, sussurrando, pede que a mulher diga onde está. Mas é Nicholas que responde -soltando, pela janela, um agressivo flato.
Em “Molloy” [ed. Globo], de Samuel Backett, há uma certa condescendência para com os gases: “Trezentos e quinze peidos em 19 horas, uma média de 16 peidos por hora. Não é demais. Quatro peidos a cada 15 minutos. É nada”. A mesma tolerância mostrou o imperador romano Claudius, que assinou lei permitindo a emissão de gases em banquetes, mas fê-lo movido por supostas razões de saúde: acreditava-se à época que reter os gases era prejudicial para o organismo.
De maneira geral, soltar um flato era falta grave. Edward de Vere, duque de Oxford, teve o azar de fazê-lo (coisa que Freud explicaria) no exato momento em que prestava juramento de lealdade à depois cinematográfica rainha Elizabeth 1ª.
Tão envergonhado ficou que se impôs um exílio de sete anos. Quando de seu retorno à corte, Elizabeth teria dito, para consolá-lo: “Meu senhor, para dizer a verdade, já esqueci aquele flato”.
Aliás, em termos da associação nobreza-flatulência, o duque não ficaria sozinho. Segundo nos conta Jô Soares, em “O Xangô de Baker Street” [Cia. das Letras], dom Pedro 2º soltava gases em pleno palácio, o que, aliás, no julgamento mencionado, foi usado como argumento pelo juiz Ricardo Artur Costa e Trigueiros.
O Peidômano: A pessoa pode reter os gases, mas será que consegue emiti-los voluntariamente? Em “A Terra”, de Émile Zola, há um personagem que consegue fazê-lo e ganha apostas com sua habilidade. Houve um contemporâneo do escritor que conseguia fazê-lo e se tornou famoso por isso: Joseph Pujol (1857-1945), autodenominado Le Pétomane (O Peidômano).
O marselhês Pujol tinha um extraordinário controle de seus músculos abdominais e do esfíncter anal, o que lhe permitia façanhas assombrosas. Exibindo-se no célebre Moulin Rouge, para audiências que incluíam Edward, príncipe de Gales, e Sigmund Freud, conseguia tocar flauta por meio de um tubo de borracha inserido em seu ânus, emitindo também os sons do hino nacional e de melodias por ele compostas.
A história de Pujol inspirou pelo menos dois filmes -o britânico “Le Petomane”, de 1979, com Leonard Rossiter, e o italiano “Il Petomane”, de 1983, com Ugo Tognazzi-, o musical “The Fartiste” -premiado como melhor do ano em 2006, no festival internacional Fringe, em Nova York-, vários artigos e livros, incluindo o best-seller “Quem Comeu meu Queijo?”, de Jim Dawson, uma abrangente história da flatulência.
Uma história que, como se constata, mostra aspectos curiosos e surpreendentes da relação humana com o corpo, particularmente no que se refere ao componente gasoso deste.
Moacyr Scliar – Fonte: Folha de S.Paulo – 09/03/08
estou comentando antes mesmo de ler o texto do scliar: o tom confessional e auto-irônico me conquistou. bom iniciar o dia com um sorisinho de canto de boca.
concordo com você. gostei do ensaio, mas não sustenta uma admiração literária. há que se conferir mais de perto. no entanto, fiquei curioso sobre os filmes.