Sobre cães e seus donos

Acho que hoje cheguei à conclusão de que, definitivamente, não gosto de cães. Um dia, na infância, até gostei. Dos meus, é claro. Mas sempre tive pavor dos cães alheios, fossem os de dentaduras hostis, fossem os bricalhões-que-buscam-bolinhas.

Apesar de não gostar de cachorros, gosto do Pluto, um dos raros personagens interessantes criado pela mala do Walt Disney. Vai ver que, justamente por isso, o único cachorro por quem tive genuína afeição foi o Mel. Ele lembrava o Pluto. 

O nome é meio gay, mas vá lá: não fui eu quem escolheu. Ele já veio batizado. É uma história esquisita, mas esse cachorro era uma espécie de mascote dos donos do curso de inglês que eu freqüentava em Santo Ângelo lá pelos 13. Era um curso meio caseiro, formado por um casal dissidente do Fisk: Andréia e Sadek. O Sadek era da jordânia, participara da Guerra do Golfo, como vigilante da fronteira: tinha estilhaços de mina terrestre no braço esquerdo; a Andréia era uma lourinha porto-alegrense, de alma cosmopolita, que tinha a cara da Meg Ryan (e, na época, nutria minhas fantasias adolescentes). Foi ela quem batizou o cachorro, um Cocker Spaniel de orelhas grandes e pelos de cores óbvias.

Com o tempo, passei a chamar o Mel de Cão (ou Cãozinho, dependendo da situação). Tinha mais dignidade. Meu pai, que no começo olhou pro animal com desconfiança, terminou apegado ao bicho. Bem mais que eu, aliás. Chorou copiosamente quando, depois de uma fuga alucinada, o Cão foi assassinado por um cavalo, a patadas. Eu fiquei triste. E puto com o dono do cavalo, um baiano que morava lá perto de casa. Mas depois passou. Nunca mais me interessei por animais de estimação. Nem eu nem ninguém lá em casa.

Hoje de manhã, enquanto caminhava calmamente pelas calçadas da Tijuca, em direção ao trabalho, passei por três donos de cães, passeando com seus respectivos. Vários pensamentos me ocorreram. Primeiro: que tipo de vagabundo passeia calmamente com seu cão às 9 horas de uma segunda-feira?! Segundo: lugar de cachorro não é em apartamento, essa coisa de levar o cachorrinho pra passear é uma anomalia gerada pela vida urbana: cachorro que se preze ou é vira-lata ou corre no quintal, sem coleira. Terceiro: a culpa pelas dezenas de montes de merda que me obrigam a caminhar olhando pro chão é desses desocupados que levam os cachorros para cagar na rua ÀS 9 HORAS DA MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA!!!

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que não odeio os cães. Odeio seus donos! Dondocas, pit-boys, patricinhas, solitários: odeio todos os imbecis que passeiam pela rua com seus animaizinhos cheirosos, tosados e CAGÕES!!!

E ÀS 9 HORAS DA MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA!!!

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