
“Vocês, que não conhecem os subterrâneos de jornal, não imaginam como uma redação é povoada de seres misteriosíssimos. Procurem visualizar uma paisagem submarina. Há peixes azuis, escamas cintilantes, águas jamais sonhadas. De vez em quando,sai de uma caverna um monstro de movimentos lerdos, pacientes etc. E passa um peixe sem olhos, que emana uma luz própria”.
“Eis o que eu queria dizer: — quanto entrei, pela primeira vez, numa redação, acabava de fazer dez anos. Com a trágica inocência das calças curtas, tive a sensação de que entrava numa outra realidade. As pessoas, as mesas, as cadeiras e até as palavras tinham um halo intenso e lívido. Era, sim, uma paisagem tão fascinante e espectral como se redatores, mesas, cadeiras e contínuos fossem também submarinos”.
Nélson Rodrigues, O Reacionário: Memórias e Confissões
O “mundo muderno” é o mundo do trabalho. A reação burguesa aos delírios aristocráticos greco-romanos e medievais – que elogiavam a ociosidade em detrimento da labuta – teve um efeito devastador sob o pensamento humano. O trabalho – ou a profissão – tornou-se uma espécie de substância elementar: é o carbono da personalidade. Está lá o cabra a passear pelo calçadão de Copacabana quando, de repente, irrompe um jornalista, microfone à mão, cinegrafista a reboque – e uma lista de perguntas idiotas. Movido por exibicionismo ou piedade (jornalistas podem sim inspirar piedade), o cabra decide dar um tempo na caminhada pra conceder a entrevistinha. Mais tarde, no recanto do lar, senta-se diante da TV e convida a família pra presenciar seus 15 segundos de fama. Assim que seu belo rostinho aparece na tela, a legenda decreta: Fulano de Tal, Engenheiro.
E, como diria o João Gordo, é assim que as coisas são. Não importa se o fulano é atleta amador, poeta ou campeão pindamonhangabense de porrinha. Pro mundo da produção, ele é Engenheiro. É isso que o define. É isso que ele é. E é melhor que seja assim, porque antes isso do que José Ninguém, Desempregado ou João das Couves, Aposentado. Legenda assim é quase linchamento moral. É o mesmo que estampar o “L” de loser na testa: lamentável.
O mais triste é que o “mundo muderno” é monolítico nesse sentido. Duvidam? É só ver o que o Marx dizia: “o trabalho é condição natural da existência humana”. Ele disse natural, percebem a gravidade? Ao afirmar isso o ateísta mor, Karl Marx, apontava para a humanidade o dedo de Deus (o que ficava bem convincente vindo de alguém com aquela barba): “Maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida [...] No suor do rosto, comerás o teu pão [...]” (Gênesis 3.17-19). Idiossincrasias, enfim…
O fato é que os dois principais sistemas políticos (e ideológicos) da modernidade tinham o trabalho em sua base. Nem Marcuse, nem a falange dos hippies conseguiu mudar isso: Marx, Adam Smith e Deus estavam certos.
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Hoje, quando olho para alguns colegas de trabalho, com (bem) mais tempo de empresa, percebo o quanto o ambiente corporativo manifesta-se não só em nossos hábitos e em nossa maneira de pensar, mas em nosso corpo também. Há um fenótipo para o jornalista, um para o publicitário, um para o advogado, um para o petroleiro… É como se as pessoas passassem por uma processo lento e sombrio de metamorfose.
Comentei isso com um amigo, dizendo que a imagem que me vinha à cabeça quando pensava nisso era a dos prisioneiros de Davy Jones, em Piratas do Caribe II. A tripulação do Flying Dutch era formada por almas aprisionadas por algum tipo de dívida com o capitão, uma criatura – literalmente – sem coração (o órgão foi arrancado e guardado num baú, tornando Jones imune a qualquer tipo de sentimentalismo). Acontece que, em troca de uma precária imortalidade, os aprisionados vêem seus corpos assumirem formas de bizarras criaturas submarinas. A imortalidade de Jones é uma balela. O que ele dá é meia vida: nem homem, nem peixe, nem morto, nem livre, nem mar, nem terra. Davy Jones é o diabo, o barco é o inferno e a tripulação as almas cativas: simples assim.
Quando falei dessa história, meu interlocutor lembrou-se de um texto do Nelson Rodrigues, sobre as redações de antigamente. Procurei no Google, colei aí em cima e pensei: impressionante como tudo se encaixa!
É…
Às vezes tenho medo de estar me tornando apenas mais um desses seres abissais que inCORPOoram os valores da CORPOração ao próprio CORPO. É uma idéia tétrica, que volta e meia me assombra e me faz pensar em maneiras de manter livre das garras do maligno.
É por isso que escrevo textos como este no horário de trabalho…
sgri, compartilhamos do mesmo pavor. e quantos somos? somos muitos? espero que sim, e que essa proxima geracao se mantenha critica e disposta a mudar alguma coisa (qualquer coisa, menos o cafezinho!). beijao.
“É um absurdo: a sociedade nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela, claramente, seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e o agir”.
o trecho é do “manisfesto contra o trabalho” (http://www.geocities.com/projetoperiferia6/contrabalho.htm), do grupo krisis. a editora conrad lançou na coleção baderna. para mim, um livro tão importante quanto “discurso da servidão voluntária” (étienne de la boétie), “a sociedade contra o estado” (pierre clastres), e “bom-dia, preguiça” (corinne maier). tem que ler, malandro!
e eu já me sinto um daqueles tão encrustados no navio que mal conseguem se mexer. Bacana o insight.