
Não sou dado a arrependimentos, mas desde quinta-feira passada tem uma coisa martelando em minha cabeça: uma dedicatória mal feita. Dei de presente pra um amigo o livro fundamental do Borges, Ficções. Era aniversário do dito cujo e o tenho em alta conta. Na escolha do título, considerei seu apreço pela língua espanhola (ele deixa de jogar pôquer para não perder aulas), sua curiosidade (tem mania de espiar a leitura alheia) e minha fé em sua sagacidade (é preciso o mínimo de sagacidade para ler Borges e gostar).
Tudo isso foi feito com o maior carinho e o mais absoluto desinteresse. E é justamente aí é que está o problema. A dedicatória do livro pareceu meio babaca. Vá lá, foi escrito no balcão da Saraiva, meio às pressas, diante da pressão da embrulhadora, mas caramba: “Quando esquecer dos amigos, leia Funes, o memorioso”! Parece advertência de namorada grudenta!
No momento, a intenção foi ser engraçadinho e tal, mas creio que superestimei o Seinfeld que há em mim. Meu humor teve um quê de judaico*, havia ali um peso, uma espécie de acusação, uma tentativa de apontar sobre o camarada o odioso dedo da culpa: “Você me abandonou!”.
Mas será que não foi mais ou menos isso? Será que, no fundo, não cometi um puta ato falho ao escrever aquilo?
Hoje, algumas marteladas depois, sinto que sim. Foi isso! Eu sinto mesmo falta desse cabrón, que posso fazer? A pergunta a ser feita, no entanto, não é essa, mas esta: e daí? Daí que isso não me dá o direito de cobrar dele qualquer tipo de brotherhood. Ninguém, aliás, tem esse direito – mas o meu caso é pior: sou um especialista em abandonar pessoas. É horrível dizer, mas quando me afasto de um grupo de amigos – porque mudei de cidade, de escola, de trabalho ou de seja lá o que for –, sou o primeiro a cortar o cordão umbilical. Não alimento esse tipo de relação. Sempre defendi que os encontros acontecem num espaço e num tempo muito específicos. Não há o que sustentar quando esse contexto se desfaz. É possível até restabelecê-lo, noutro tempo, noutro espaço e noutro grau (que pode até ser mais forte), mas mantê-lo acima dessas duas dimensões… pra mim não rola.
Logo que mudei pro Rio, sei que muita gente em Guarapa City e Fake Town deve ter se ressentido. O fato é que perdi contatos meio que por opção. Primeiro reduzi a intensidade das conversas no MSN, depois a freqüência de respostas no Orkut, depois o envio de e-mails. Até que, finalmente, cheguei num ponto onde a imagem converteu-se numa espécie de retrato.
O retrato é algo poderoso, capaz de ativar infinitas memórias, despertar emoções adormecidas e nos permitir reviver momentos preciosos. Mas um retrato será sempre um retrato: estático, sem vida. Vem daí, muitas vezes, sua mágica. Os bons momentos informados pelo retrato, sob o filtro da saudade, criam um halo de perfeição que nos faz olhar pra ele e dizer: “Puta-que-pariu, a vida valeu a pena!”. Qualquer relação pautada pela cobrança, pelo “quando é que você vem me visitar?”, pelo “pô, nem me liga mais” – qualquer relação assim está fadada ao desgaste. Joga-se fora, dessa maneira, até a possibilidade do reencontro fantástico, aquele que faz emergir de uma mesa de bar um universo afetivo inteiro que esteve “sustenido” no hiato entre os dois pontos: ida, volta; você, o outro.
É nisso que eu acredito, em encontros no tempo e no espaço. E este texto não passa de um mea culpa de quem não quer fazer aos outros aquilo que não quer que os outros o façam. Não quero cobranças, quero liberdades. Sobretudo a liberdade de mudar – de gosto, de amigo, de bairro, de casa, de cidade, de trabalho, de opinião e até de personalidade. E foda-se o papo-furado do Pequeno Príncipe! Ninguém é responsável por aquilo que cativa: culpado é quem se deixa cativar; culpado é quem se torna cativo.
Se pudesse reescrever a tal dedicatória sob esta ótica revisionista, tornaria a indicar a leitura de Funes, o memorioso. Mas não para exaltar o não-esquecimento como algo positivo, e sim como maldição, da maneira que o conto encara colossal memória de Funes. Quem vive no mundo das lembranças, perde o mundo da vida: o mundo dos cheiros. É por isso que eu digo: salve a amnésia alcoólica!
Em resumo: Nego Véio, esquenta não com esse papo de “tá sumido” e blá-bla-blás afins. Tu é um cabra bom e isso basta. Quanto tiver de ser a gente se esbarra, tomas umas e bota o conversa em dia…
E parabéns.
* Acho que isso explica o seu presente, Burger.
maikelsgri, você tirou as palavras da minha boca! será que fomos separados na maternidade?
Aê… rola um almoço de reconciliação??? Abração cabra, valeu.
Grande Maikel, grandes textos – esse e o do Davy Jones. Se me permite, linkei seu blog no meu, que segue neste formulário. A corporação não é maior que os blogs…
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Tenho um amigo de infância que lançou um livro de poesias. A gente se via pouco, mas falávamos de literatura. Acho que ele superavaliou o momento e deu tipo um branco, ficou meia hora lá, penando e sofrendo para fazer a dedicatória. Que, ao final, veio “um abraço para o amigo Guilherme” e só. Não sei se ele se arrepende de não ter tido a inspiração de escrever algo grandioso ou bombástico ou simplesmente “certo”. Mas de qualquer forma, me senti honrado (embora tb um pouco penalizado) com o esforço. Valorizei. Legal o post “do outro lado”.