
Quer saber como nasce um nome próprio? Pergunte ao outro: pergunte a quem dá nome. Essa é a obviedade escondida em cada cena do último filme de Murilo Salles. Nome próprio a gente não escolhe: a gente ganha. Recebe, aceita, acostuma-se e, em geral, aprende a gostar. Essa sutileza é importante para entender a história de Camila.
Na primeira cena de Nome Próprio o que vemos, a princípio, é o interior de um apartamento em processo de desmanche. Estantes cheias de livros, que são arremessados ao chão; CDs, que são enfiados apressadamente numa caixa; um computador, violentamente desplugado. Quem desmonta o apartamento é um homem: é o que podemos adivinhar entre enquadramentos e distorções de uma câmera nervosa que acompanha um personagem idem. Demora até que possamos conhecer, finalmente, a dona da história. Encolhida no chão, sobre um colchão velho, está Camila. Ela chora. Está nua.
A conjugação de perda (da casa, do namorado, do amigo, da amiga), nudez e choro será, a partir daí, uma constante em Nome Próprio. E será essa dinâmica o principal motor criativo de nossa escritora. Os textos de Camila são ecos do mundo em um vazio interior. É que nossa heroína parece desprovida de subjetividade. Seu caminhar – cambaleante – não é em direção ao auto-conhecimento. Não se trata descobrir quem se é, pois isso não tem a menor importância. O que importa é construir uma persona capaz de mediar essa relação entre um eu incompreensível e um outro inacessível para poder, dessa forma, sentir-se, finalmente, em casa – no corpo, no mundo, na vida. Por trás de uma aparente sensibilidade artística e de uma proclamada intensidade, esconde-se uma incapacidade de lidar com os silêncios, com os fluxos da existência, com o indizível.
Escrever um diário é uma maneira de moldar uma imagem si para si mesmo; falar de si em um blog é pedir a ajuda do outro nessa empreitada; é um pedido de socorro. A relação de amor e ódio entre Camila e seus leitores nasce da constatação de que, também eles, não são capazes dessa hercúlea tarefa. Pelo menos, não com a urgência que ela exige.
“Eu preciso de um homem que me faça calar a boca”, ela decreta, em determinado momento, clamando por alguém forte o bastante para lidar com seja-lá-o-que-ela-for. Ao desejar alguém que lhe “cale a boca” Camila pede alguém que tome para si o fardo que é dela; ela pede alguém que a defina. Por um instante, ela acredita ter encontrado em Daniel, seu admirador secreto, o esperado salvador. Mas Daniel não era esse homem forte. Ele apenas percebera o óbvio em Camila e usara a seu favor. O jogo de esconde-esconde estabelecido na troca de e-mails entre os dois – e sobretudo as lacunas desse contato – foram fundamentais na construção do Daniel-fictício pelo qual o Daniel-Daniel sabia que Camila se apaixonaria. O que ele sabia também é que, como toda construção, aquela também sofreria a ação do tempo. Daí a necessidade de pular fora, colocando um ponto-final do romance e devolvendo a Camila os fardos que lhe cabiam.
É desse conjunto de equívocos e desencontros que brota, aos poucos, a persona procurada por Camila. É a partir dessa imagem projetada – mais pelos atos que pelos discursos – que Camila receberá do mundo um nome próprio. A última cena do filme mostra duas Camilas diante de um espelho. Elas fitam o espelho/câmera em busca de uma resposta. Do lado de cá, estamos nós, o público, testemunhas da caminhada da protagonista até ali. Camila pede uma resposta e recebe de volta um reflexo. E um nome. Ela aceita.
voltei de viagem e me surpreendo com duas críticas bem escritas pra cacete. tudo bem que eu já estava afim de ver ambos, mas depois de ler, deu vontade de ir agora.
braço.