da liquidez do carioca

Recebi hoje um texto de um amigo. Tijucano de nascença e boa praça de crescença, esse cabra é uma das figuras que aprendi a querer bem no Rio de Janeiro. E o tal texto, encaminhado por ele a uma lista de discussão que acolhe paulistas, mineiros, gaúchos – brasileiros, enfim!  — dizia do Rio mesmo. Trata-se de uma crônica do paulista João Antônio, intitulada Carioca da Gema.

Com uma sutileza que escapou para a maioria do leitores que se manifestaram a respeito na polêmica lista, João Antônio avança, frase a frase, como quem palminha um terreno desconhecido, tentando compor sua imagem do carioca com os parcos elementos disponíveis. Reside aí, na verdade, a beleza mesma do texto: ela está nessa preocupação de deixar tudo incerto – como de fato é. Toda vez que se pega resvalando no clichê, o autor interrompe com um “mas isso é carimbo”. Ele parece saber que, quando se tenta falar do Rio, o mais fácil é cair na vala comum das frases feitas.

Ao descrever o carioca típico, ele começa: “Folgado, finório, malandreco, vive de férias. Não pode ver mulher bonita, perdulário, superficial e festivo até as vísceras”. E, de repente, ao perceber-se em falta, arremata: “Adjetivação vazia… E só idéia genérica, balela, não passa de carimbo”. Belo artifício esse do João Antônio. Talvez o único possível quando se tenta tocar a essência fugidia dessa cidade tão única.

Brotou daí, dos hiatos deixados propositalmente pelo autor, a polêmica que animou as discussões tal lista. A primeira resposta foi suscitada pelo parágrafo de abertura: “Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros”. Alegre? Perguntou um dos debatedores, mineiramente, antes de decretar: “Não conheço muitas cidades do Brasil, mas destas poucas o Rio é onde encontro mais pessoas mal-humoradas na rua — de cara amarrada, rosnando, prontas para começar brigas em qualquer lugar”.

Como estrangeiro, a princípio, senti-me forçado a concordar. De fato, o rosto do carioca denuncia, não raro, a amargura daqueles que têm no coração um espinho. Arrisco a dizer que esse incômodo nasce do atrito entre o Rio vivido e o Rio sonhado; entre o Rio Bossa e o Rio Funk; entre o Rio Ipanema e o Rio Rocinha; entre o Rio asfalto e o Rio favela.  A imagem que me vêm à cabeça quando penso nesses contrastes (e a imagem do Rio contraste também “é carimbo”) é a das placas tectônicas. Capazes de viver lado a lado por eras, basta um movimento brusco de uma das partes para gerar cataclismos horrendos – terremotos, tsunamis, o inferno.

É impossível não se apaixonar pelo Rio sonhado. A beleza dessa cidade cantada nos versos de Tom e Vinícius merece, sim, todo nosso amor. Ninguém poderá negar ao Rio o título de “cidade maravilhosa”. Deve-se prestar homenagens a esse Rio idílico da mesma forma como se reconhece a magnitude do Coliseu: mesmo em ruínas.

Ruínas, ruínas, ruínas. É disso que se trata o Rio de Janeiro: ruínas. Como as ruínas do Coliseu, a cultura carioca também foi um dia estrutura. Nesta cidade ergueu-se, no passado, talvez a cultura mais sólida do país. Estão aqui os principais monumentos da cultura brasileira. Até os grandes artistas que não nasceram por estas terras, elegeram a cidade como morada, tamanha a força centrípeta exercida por ela. Nenhuma cidade do país atraiu tantos os olhares. Não só de brasileiros, mas do mundo. Se há uma cultura brasileira ela está aqui, na síntese representada pelo carioca. As belezas do Rio foram exaltadas pelo mineiro Drummond, pela pernambucrania Clarice Lispector, pelo gaúcho Luís Fernando Veríssimo, pelo baiano Caetano e até pelo novaiorquíssimo Sinatra. Se há uma coisa que o mundo deve ao Rio é reconhecimento. E carinho.

Carinho que tem sido negado à cidade (e dá-lhe espinho no coração). “Mundo ingrato”, o carioca vitupera: “Depois de tudo que fizemos por eles, cravam-nos a faca!” Sim, sim, eles tem razão. O Brasil deu as costas pro Rio. Voltou seus olhos para Brasília e seu dinheiro para São Paulo. E Rio ficou aqui, com sua história e sua melancólica amargura.

Melancolia algo portuguesa, diria. Melancolia de quem teve o mundo na palma da mão e o deixou escapar entre os dedos. Melancolia de quem não consegue tocar a carruagem da vida porque não dá pra andar com tanta tralha na carroceria.  Enquanto o carioca fita o passado, o caminho do futuro cria mato e fica cada vez mais difícil avistar a trilha que leva ao porvir. O Rio perdeu o bonde da história.

O mundo negou ao Rio o que o Rio sempre ofereceu ao mundo: seu jeitinho. A geografia do Rio está cravada tão fundo na alma do carioca que até em seu modo de ser ele mimetiza as sinuosidades que caracterizam estas paragens. Assim como o Rio aprendeu a crescer, à maneira lusitana, em meio aos acidentes geográficos – os morros, as enseadas, as matas –, o carioca aprendeu a crescer com suas mazelas. Por traz dessa aparência de dureza, que se assemelha à rocha dos morros, o carioca é líquido como a água do mar. “Ah, se soubessem que para ser bem atendido em um bar basta sorrir pro garçom e gritar: ‘Ô, Chico, Tem como descolar aquela mesa?’”, explica um carioca da gema aos forasteiros inconformados. “E para cerveja vir gelada basta: ‘Amigão, traz aquela cerveja? Mas aquela gelada que só você descola, hein?’”.

Eis aí a liquidez oceânica do carioca. Como o mar, o Rio – e o carioca – é de uma beleza descomunal. Com suas sereias e seus cantos, o mar, à primeira vista, é um convite. Mas cuidado: pode ser um convite à morte. Se nos atirarmo-nos nele sem cautela, podemos ser tragados. Por outro lado, se aprendermos a entender seus ritmos, a dança das marés, o traçado das ondas… aí sim: o mar é bênção, faz-se doce, nos abraça. Jamais agrida o mar. Ele está farto de tanto lixo e maus tratos. E não tente “tirar onda” do mar se você não for parte dele: ele irá repeli-lo. Em direção à rocha.

À medida que o tempo passa, aumenta minha desconfiança de que é justamente essa liquidez que corrói as estruturas do Rio (sua sólida cultura), assim como as bases de Veneza estão sendo devoradas pela água de seus canais. É dessa complacência representada pela liquidez que brota o musgo que cobre as pedras e deixa no ar este cheiro de podridão. Às vezes, faz-se necessário construir diques capazes de conter toda essa fúria aquática, que a tudo invade, devora, dilui.

Mas como controlar o que nos dá sentido? Como impor barreiras ao mar que somos sem perder nossa essência? Como salvar Veneza sem privá-la dos os canais que fazem dela o que ela é?

Acredito que a essa é a questão que o carioca precisa responder para tirar o espinho de seu coração.

Mas também isso, possivelmente, é carimbo.

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