wim wenders e o anticinema de ozu

“Quanto mais velho eu fico, menos eu acredito em fórmulas. Na verdade, eu perdi toda a crença que alguém saiba o que faz um filme ter valor. A única coisa que sei é que, se você faz um filme no qual você mesmo passa por uma experiência, um ato de compreensão, então, o público tem uma chance de acompanhá-lo, compartilhar a experiência. Não é muita sabedoria, mas é a única que tenho”.  [Wim Wenders]

Não sou um apaixonado pelo cinema japonês, mas ontem, ao fim de Bom Dia, entendi por que Ozu é considerado genial por tanta gente. Desde Tokyo-Ga, o documentário de Wim Wenders sobre o Japão (e seu grande cineasta), a idéia de ver mais coisas do japinha virou uma obsessão. Até então, a única obra dele com a qual tinha tido contato era Fim de Verão, que vi em 2005, em Porto Alegre. Lembro de, na época, ter saído do cinema com algo Zen. A forma tranqüila como Ozu desenvolvia sua história, a imobilidade ativa daquelas imagens, tudo me levava a crer que estava diante de algo diferente, diante de um olhar especial. Anos antes, curiosamente, tivera essa sensação com o Wim Wenders de Paris, Texas. Esse misto de estranhamento e fascínio me fez querer mergulhar naquele universo. 

Brilhante a maneira como Ozu nos apresenta às pequenas idiossincrasias da cultura suburbana japonesa em “Bom Dia”. O olhar do grupo, as regras, as conveniências e inconveniências daquele tecido social que o cineasta desfia diante da gente. Atritando com essa cultura está lá sociedade americanizada do Japão pós-guerra. Televisores e lavadoras de roupas são objetos de desejo e motivo de discórdia entre vizinhos e familiares. Sob a máscara da polidez – dos bons modos, dos gestos contidos, das saudações – pode-se perceber um caldeirão efervescente de emoções. O que é importante, não é dito, mas é visível. “É mentira, posso ver na sua cara, você está rindo”, diz o menino ao pai quando este ameaça devolver a TV se ele e o irmão ficarem muito barulhentos.  “As coisas importantes são mais difíceis de dizer”, fala outra personagem… e por aí segue Ozu, a passos curtos e precisos, construindo seu pequeno conto visual.

Li recentemente que Wenders dedica-se a um roteiro de ficção baseado na novela de Ryu Murakami, “Miso soup“. Nesse livro, um japonês que trabalha como guia turístico para estrangeiros interessados em conhecer os inferninhos japoneses (e sua maneira pitoresca de expressar a sexualidade) vê-se às voltas com um americano deveras esquisito, que obtém prazer matando mendigos e degolando prostitutas (tudo indica que, no filme, o maluco será interpretado por William Dafoe: escolha perfeita).

Acontece que, para além dessa estrutura de romance policial, Ryu lança um olhar sobre o Japão contemporâneo e a imagem não é das melhores. O que se vê é uma sociedade perdida, num avançado processo de crise identitária (pra falar bonito). Talvez essa estrada perdida tenha sido identificada por Ozu anos antes. O próprio Wender apontava isso em Tokyo-Ga. Talvez o projeto “Miso Soup” seja, para Wenders, uma maneira de retomar essa estrada interrompida para melhor compreendê-la.

Todo filme de Wim Wenders é um Road Movie.  

PS: Na busca de imagens pra ilustrar este post, acabei encontrando dois blogs bacanas, um falando dos documentários do Wenders e outro falando do Ozu. Os dois textos são melhores que este meu. Aproveitem.

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