mojo, papel e fetiche

O primeiro texto que li na Mojo Books era inspirado no álbum Back to Black, da Amy Winehouse, que ainda figura em segundo lugar no Top Five do site. Não foi por acaso. À época em que a página me foi apresentada, esse álbum tocava em loopin’ no meu iPod. O clique foi óbvio. Baixei.

O conto homônimo, assinado por Fernanda Nascimento, de 25 anos, é um dos muitos escritos dentro da proposta simples da Mojo Books: “Se música fosse literatura, que história contaria?”. No catálogo da editora, é possível encontrar textos inspirados em álbuns como Transformers, do Lou Reed, In Útero, do Nirvana ou Revolver, dos Beatles. São coisas diferentes. Em geral, os álbuns escolhidos para virar conto têm status de arte e suas crias não passam de homenagens singelas. E é justo esse ar despretensioso que dá à Mojo boa parte do charme que ela tem aos meus olhos.

Aos jovens poetas que acabam de vislumbrar na editora a grande oportunidade para publicar seu livro, um alerta: “A Mojo é uma editora 100% digital”. Suas publicações não envolvem papel, mas PDFs muito bem editorados nas dimensões exatas de um encarte de CD. Pra ficar rico também não serve. Todo mundo pode baixar à vontade, sem pagar um centavo.

Sei que a princípio pode parecer apenas mais um espaço para dar vazão à ego trip de adolescentes atormentados ou ao umbiguismo de escritores frustrados, mas não. A Mojo tem editores, gente que avalia a qualidade dos textos a serem publicados e garante uma qualidade mínima ao grosso das publicações. E é bom que seja assim. Afinal, se é escrever o que dá na telha, melhor criar um blogue!

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Já ouviram falar do Daniel Galera? Pois é. O autor de Cordilheira e Cão Sem Dono começou a aparecer assim, à moda Mojo. Seus textos foram publicados apenas na Internet, de 1996 a 2001, “com destaque para os três anos como colunista do mailzine Cardosonline”, como ele destaca em seu blogue. O primeiro livro de papel saiu em 2001 pelo extinto selo independente Livros do Mal, criado por ele em parceria com o Pellizzari e o Guilherme Pilla.

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Esse papo furado todo é pra fazer nova referência ao Abra Los Ojos.

Não gosto de ficar parasitando o blogue alheio, mas pude evitar. Num texto publicado esta semana sob a rubrica de “Não existe nada mais velho que seu jornal de hoje”, o Raul discute a (velha) tese do fim do jornalismo impresso – que paira no ar desde a invenção do rádio –, e que, depois da popularização da Internet – com seus blogs, orkuts e twitters – ganhou status de certeza.

O Abra Los Ojos aborda sete aspectos desse debate. Alguns são constatações importantes, que realmente apontam em direção ao fim do jornal; outros, que exaltam as novas mídias, mas parecem esquecer que o acesso a elas não é tão universal assim, merecem ressalvas; e o último aspecto, que fala sobre o impacto ambiental positivo do fim do jornal (a significativa economia de papel e, conseqüentemente, de árvores), olha para os livros de revestrés: será que não seria indicado acabar também com o livro impresso?

O comentário que deixei lá foi na seguinte direção: o livro, especialmente no Brasil, sempre foi um nicho e seus leitores sempre viveram nele – o livro – um “fetiche”. Quem gosta, vai continuar comprando. O mercado editorial é que vai mudar. Acho que os best-sellers da Veja tendem a perder espaço para edições independentes, que poderão ser “testadas” primeiro em suportes digitais e, em casos especiais, impressas em pequenas tiragens. A meu ver, é nessa direção que apontam o caso da Livros do Mal e da Mojo Books, por exemplo.

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Creio que o que a Internet tem sido, na verdade, uma oportunidade para que diversos nichos, que existiam há anos, em silêncio, muitas vezes geograficamente dispersos, finalmente, apareçam, se encontrem, compartilhem experiências e até trabalhem juntos em torno de objetivos comuns.

Hoje em dia, já é possível, por exemplo, publicar uma revista de maneira independente e distribuí-la para públicos específicos a um custo relativamente baixo: U$ 0,20 a página. É isso que se faz no MacCloud, da HP. Pelo site, é possível encomendar uma revista à la Bravo! – cheia de fotos, desenhos e outras firulas – sobre qualquer assuntos que vão da criação de Chinchilas nos Andes até o campeonato de Porrinha de Nova Venécia.

“Não estamos falando em substituir as Vanity Fair do mundo”, diz em matéria do New York Times o professor de jornalismo da Universidade do Mississipi, Samir Husni, que planeja usar a tecnologia na sala de aula. “Mas é uma idéia atraente para uma imprensa de variedades que me lembra os zines undergrounds que tínhamos nos anos 60 e 70″.

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Não acho que livros, jornais e revistas vão acabar. Mas concordo que os grandes jornais estão sob ameaça — e não é de hoje.

Mas que fique bem claro que o fim do jornal não é fim dos jornalistas. Somos duros na queda. Como as baratas.

2 Respostas

  1. Eu escrevi um dia desses no meu blog que muito me preocupa essa questão do fim do jornal impresso, pela falta de filtros das informações (que fique claro que “filtros” aqui não possui relação alguma com censura) e pelo excesso de opções de leitura. Mesmo que no top da utopia todas as pessoas possuíssem computadores ligados à internet.
    Pense comigo, milhares de blogs e sites trazendo informações desencontradas, vide os textos quem tem sua autoria atribuída a diversos escritores diferentes na net. E ainda que sejam blogs e sites sérios, frutos de muita pesquisa e edição, ainda serão muitos, com poucos leitores. Eu talvez seja tradicionalista, arcaica mesmo, mas os meus livros eu prefiro em papel, entre as mãos, com cheiro de livro. Sim! Eu sou fetichista!
    É claro que uma idéia original como o Mojo sempre vale a pena conferir, mas imagine quantos “Mojos” vieram à rede e deixaram de existir, sem que tivessem visibilidade… e sim, jornalistas são como baratas, mas daqui algum tempo seremos “baratas na teia”, não sei não, mas isso pode acabar mal.

  2. P.S: Eu voto que escritores ruins como Paulo Coelho (questão de opinião, não se ofendam) deveriam ser obrigados a publicar digitalmente seus livros, pq isso sim é desperdício de papel. =D

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