adeus, velho safado

Bukowski-Words

Eu quero mudar. Sei que os leitores mais assíduos do blogue vão duvidar disso. Sei que aqueles que me conhecem vão rolar no chão, às gargalhadas. Mas é sério. Eu quero levar uma vida mais saudável. Minimamente mais saudável. E quem me conhece sabe a dedicação e a força de vontade que isso exigirá de mim.

Sou um sedentário de carteirinha. Há mais ou menos 10 anos, substituí os exercícios, que incluíam partidas semanais de futebol, braçadas nas águas geladas da enseada azul e corridas de ida e volta na areia fofa da Praia do Morro por hábitos mais prazerosos e fatais, como comida farta, bebidas cigarros e mulheres (com muita, muita ênfase nos três primeiros itens, mais por incompetência que por opção).

De certa forma, tomei gosto pela vida boêmia. E, sobretudo, tomei gosto pela aura que saía dela. Essa coisa hedonista de livros, noitadas e embriaguês tem realmente um charme. Sobretudo quando se é jovem e se tem uma vida toda pela frente para se endireitar (engraçado como a idade faz a gente querer se endireitar) quando as coisas começarem a dar errado.

Acontece que eu não tenho mais a vida toda pela frente. E algumas coisas já começaram a dar errado. Por exemplo? Faz três semanas que lido com bizarrices mais ou menos incômodas. Mais ou menos, não. Extremamente incômodas. Primeiro foram as inflamações subcutâneas que pipocaram em meu rosto: foram três espinhas, imensas, horrendas, dolorosas. Atribuí seu aparecimento a um possível estresse, a uma reação psicossomática a algum tipo de insatisfação existencial que, oprimida pelo meu racionalismo superprotetor, resolvera dar as caras na cara. “Tudo bem”, pensei. “Eu posso lidar com isso. Deve ser o álcool saindo, haha”.

Mas depois eu relaxei. Meu aniversário foi ótimo, estava tudo em paz, tudo tranqüilo, cheio de paz e harmonia… quando espocou o terçol. O primeiro em 28 anos de aporrinhação. O primeiro, em 28 anos de crises existenciais e pirações. O primeiro. Bem quando eu estava bem, veio o primeiro.

Havia alguma coisa errada. E não era só estresse.

Estou tratando o bichinho. Fui ao oftalmologista ontem. Depois de fazer uma cara de assustado e me repreender por não tê-lo consultado antes, o cabra receitou-me um colírio e uma pomada oftalmológica, que, de ontem pra hoje, já parecem ter surtido algum efeito. Por um momento, hoje de manhã, pensei: “Beleza, semana que vem, já posso voltar à lama”.

Mas aí eu resolvi refletir. E refletindo, cheguei às conclusões esboçadas no primeiro parágrafo: eu quero mudar. Como disse a Helena, quando falei de minha vontade de saúde, ela foi direta: “Essa linha Bukowski não tem mais graça”. Na mosca. Era isso mesmo que eu precisava ouvir. Algo que já percebera faz tempo, mas que ficava tentando ocultar de mim mesmo, para sustentar o personagem.

É isso, povo. Sejamos honestos: eu estou longe de ser um Bukowski, seja no talento, seja no estilo de vida. Não sou nem tão boêmio, nem tão velho, nem tão safado. Não sou alemão, sequer estava vivo nos anos 60 e, atualmente, estou longe de ser um vagabundo iluminado, cheio de poesia e de fome. Reconheçamos (vá lá, eu sei que vocês já sabem disso, mas deixem-me fingir que estou contando uma novidade): sou apenas um trabalhador ordinário, que durante oito horas de seu dia lida com tarefas mais ou menos inúteis, que não fazem diferença nem para o mundo (acho que o emprego ideal é aquele capaz de alterar os rumos da história), nem para a empresa (o que faço não tem impacto algum na atividade fim) e nem para mim (porque em geral as coisas que faço não exigem muito esforço criativo ou inteligência). Logo, qual é a graça de encarnar o Bukowski? Qual é a graça de entrar num espiral autodestrutivo toda vez que acaba o expediente? Qual é a graça de ser meio cronópio y meio fama? Isso é esquizofrenia!

Foi seguindo essa lógica que decidi: quero começar a correr. Faz tempo que leio sobre corrida e fiquei particularmente tocado com o texto de um colega de trabalho, que adquiriu esse hábito e, de certa forma, usa-o como contraponto à vida bandida do escritório. Hoje mesmo eu vinha falando no assunto quando abri o blogue do Antônio Prata e estava lá este texto, sobre corrida, e aí decidi que isso era um sinal (sou meio místico mesmo). Vou começar a correr.

One Response

  1. “Essa linha Bukowski não tem mais graça. Na mosca”. Pow meu, o Bukowski trabalhava nos correios, e o trabalho dele tb n era importante para a empresa, nem para ele, nem para a humanidade. nao faça isso, meu! eheheheh. (olha o conselho do diabinho). quando vc estiver casado, olhando Faustão com uma latinha de cerveja equilibrada em cima da barriga, pensando “amanhã vou correr de novo”, jogando um grão de pipoca no chão para o seu cachorro de estimação, e gritando para o Juninho parar de brigar com a sua irmã mais nova, aeh você vai sentir muita, mas muita falta e saudades da vida a la Bukowski. Mas enfim, eu também estou indo nesse caminho… até na academia estou indo… é a vida. abraço

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