Meu último feriado de réveillon foi um tanto quanto esquisito. Eu e minha costela tínhamos programado há bastante tampo – coisa de meses – uma viagem para Guarapari, onde passaríamos a virada com meus pais, com muito churrasco, cerveja e preguiça, como de praxe.
Não me recordo de uma passagem de ano tão bem organizada. Geralmente, o que eu faço é inventar alguma coisa de última hora, gastar um horror e me embriagar alucinadamente a fim de esquecer furada em que acabei me metendo. Este ano, estava tudo certo. Tudo organizado.
Exceto por um detalhe. Esquecemos de combinar com São Pedro. Choveu muito em todo Espírito Santo. Várias cidades do estado estavam às voltas com enchentes e desabrigados. Muitas estradas intransitáveis. Meu pai já nos tinha ligado no dia anterior, pra falar do caos e perguntar se iríamos mesmo. Durante o dia, eu tinha acompanhado as notícias. Liguei pra lá, pra me certificar de que o tempo tinha melhorado. “Hoje de manhã, o sol saiu”, disse minha mãe. Pra evitar o transtorno de cancelar a passagem, decidimos manter a viagem.
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Chegamos ao Santos Dumont às 17h30. Nosso vôo saiu no horário, às 18h40. No Rio, céu de brigadeiro. Lembro de ter ficado um bom tempo admirando a vista da Baia de Guanabara que se tem do segundo andar do aeroporto. Sempre tinha passado por ali na correria, nunca tinha reparado no quanto é bonito. (O Rio tem dessas coisas).
A novela começou quando o Comandante deu início “aos procedimentos de descida no aeroporto de Vitória”, anúncio que aconteceu no mínimo meia hora antes da primeira tentativa de reduzir a altitude. Não dava pra ver absolutamente nada. Nuvens negras e escuridão eram tudo que tínhamos. E eu, do lado da turbina, na ânsia de ver as luzes da cidade, comecei a ficar angustiado. Depois de muita embromação, chegou a hora de pousar. Sob muita chuva, pude ver a orla da praia, o brilho da terceira ponte, as casinhas da república. “Lá vamos nós”, pensei. E, em seguida: “Opa, opa, opa! que é isso rapaz? Agora não é hora de subir, não! Que porra é essa? Quer me matar do coração?
Foi a primeira vez que um avião arremeteu comigo dentro dele. Péssima, a sensação. Como bem definiu minha amiga Helena: “Parece um carro mil na ladeira, né? Você reduz pra segunda, reduz pra primeira e o bichinho fica lá, gemendo e você pensa: não vai dar”. Sim, é exatamente isso. A diferença é só de algumas toneladas – e o detalhe de estar a muitos metros do chão em alta velocidade.
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“Por medidas de segurança”, voltamos para o aeroporto mais próximo: o Galeão. Sem sair da “aeronave”, ficamos esperando a decisão da Gol. No vôo, muitos passageiros em conexão, cujos destinos finais eram Brasília, Manaus e até Maceió. Todo mundo alvoroçado. E nada de informação. De repente, um tiozinho “se emputeceu” e cismou que queria descer. Foi pra cabine e começou a infernizar. Queria sair e queria suas malas, que estavam no compartimento de bagagem.
À minha frente, uma dona demonstrava preocupação com a saúde de sua cadelinha, que, dopada, viajava entre as malas. E se ela acordasse? Já pensou que tragédia?
Resolvido o problema do moço desesperado, o piloto deu uma excelente notícia. Estavam prontos para decolar, faltava, apenas… o plano de vôo. A explicação do Comandante para o imbróglio foi: “A torre diz que não recebeu, a Gol diz que já enviou”. Palavras deveras reconfortantes, como o leitor pode perceber. Tanto que, diante dessa informação, minha costela brincou: “Putz, nem plano de vôo eles têm, quero descer também!”.
Deveríamos ter levado a brincadeira a sério.
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O plano de vôo chegou, o avião partiu: mais 50 minutos até Vitória, na base do biscoitinho com refrigerante. Quando chegamos lá, déjà vu. Avistei da janela o aeroporto de Vitória debaixo de uma chuva torrencial, fui tomado por um sentimento religioso e comecei a pedir, em silêncio: “Não pousa! Não pousa! Volta pro Rio, volta pro Rio que é melhor!”. Nova arremetida, novo susto – mas agora seguido de imenso alívio. Eu realmente vislumbrei a chance de morrer ali. Não tive medo da tragédia em si, mas de interromper minha historinha tão cedo, tendo feito tão pouco e me ocupado de tanta coisa desimportante.
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Na volta pro Rio, só fiquei preocupado com meu pai. O velho estava no aeroporto me esperando desde as 19h. Já passava de 1h30 da madrugada e ele teria de pegar a estrada para Guarapari, com aquele tempo – num fusca! Só me tranqüilizei quando, já no Galeão, consegui falar com ele. Estava a caminho de casa. Pedi que me ligasse ao chegar.
Ainda esperamos um bom tempo para resolver questões práticas. Reembolso, voucher pro táxi. Os funcionários da Gol pareciam baratas tontas, perdidinhos. Na fila, geral reclamava. Uns, mais ousados, acusavam o piloto de covardia e incompetência. “Só a gente que não pousou”, vituperavam. Eu ouvia e pensava: “Ainda bem, não quero ter que entrar em avião um esperando do piloto exibições de perícia! Eu quero é o feijão com arroz, procedimento por procedimento, como está no manual”.
Pisamos em casa por volta das 3 horas da madruga. Como comentou alguém na fila do voucher, no aeroporto: “O caminho mais longo do Santos Dumont ao Galeão”.
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Foi assim que acabei passando a segunda virada de ano consecutiva no Rio de Janeiro. Ano passado, a idéia era ir de carro e acabamos desistindo na última hora por causa do trânsito. Desta vez, o tempo nos pregara uma peça.
Só fiquei triste por ter perdido mais uma oportunidade de rever a Layla e o Werley, parte do grupo de melhores amigos dos quais acabei me afastado ao final da faculdade. Estavam no Espírito Santo para as festas de final de ano. Não os vejo há pelo menos 5 anos, desde que nos mudamos – eles, pra Brasília, eu, pro Rio. Junto com Orlando e Miriam, que também estariam em Guarapari para a virada, eles fizeram parte de uma época muito importante da minha vida. Aquela época que a gente ainda acredita que pode tudo. Que todos os caminhos reluzem pra gente. Aquela época em que fomos mais sábios, mais belos, mais espirituosos e mais confiantes do que nunca.
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De volta ao Rio, estávamos cansados demais, eu e a Costela, para encarar Copacabana, com seu metrô lotado e seus gringos. Como a casa estava cheia de visitas, resolvemos fazer um jantarzinho simples, encher a cara e dormir cedo. Foi bem mais divertido do que parece. Rimos um bocado, dançamos na sala e dormimos pra lá de bêbados quando acabaram os fogos na praia do Flamengo.
O rango ficou bacana. Cordeiro ao molho de tomate e pimentão, acompanhado de um cuscuz marroquino frustrado – deixei passar do ponto e nego a aceitar o elogio dos convivas que juravam que estava uma delícia.
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O que eu não contei, nessa história toda, é que, no caminho para o Santos Dumont, eu tinha começado a ler o Um Livro Por Dia – minha temporada parisiense na Shakespeare and Company. Foi interessante combinar a leitura e o susto que famigerado vôo me pregou. Pensei e repensei uma porção de coisas da vida. Posso dizer que cumpri o ritual de passagem e usei o 1º de janeiro para refletir. Não fiz planos, nem promessas. Não estabeleci grandes metas. Mas acho que talvez tenha começado a entender melhor algumas coisas.
Mas não quero falar disso agora.
POST-SCRIPTUM
Ontem, recebi uma ligação da Layla, por volta de 16 horas. Não estava brava comigo. Ligou pra dizer que o vôo deles (ela, Werley e o filho Bernardo) de Vitória para Brasília faria uma conexão esdrúxula no Santos Dumont, às 19 horas. Até o embarque para a capital federal, eles teriam duas horas para ficar de bobeira no Rio. Perguntaram se eu não queria vê-los.
Quem me conhece sabe o quanto é difícil me convencer desviar do caminho de casa (ou me tirar dela) numa quarta-feira. Dessa vez, no entanto, era por uma boa causa. E valeu muito a pena. Uma das coisas mais incríveis da amizade, o que lhe confere materialidade, é essa sensação de encontrar pessoas que você não vê há cinco anos e conversar como se os tivesse visto ontem. Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz na companhia de pessoas queridas.
Pena que a passagem deles foi relâmpago. O tempo de beber meia dúzia de cervejas e ver o filho deles – um moleque de olhar esperto que tinha menos de 6 meses de vida da última vez que o vi– se divertir com meu PS3.
Quando eles se foram, a saudade, paradoxalmente, cresceu. Depois da conversa – de olhar pra cara deles depois de tanto tempo e ver que, embora muita coisa tenha mudado, as coisas que realmente importam continuam iguais – fiquei pensando em como seria legal tê-los mais perto.
Peço desculpa aos leitores pelo tom açucarado deste post scriptum. É que esses sentimentos demasiadamente humanos deixam a gente tão clichê.
Mas que se dane! Talvez a felicidade não seja nada além de um lugar comum.
Caramba… a passagem pelo Rio foi sensacional mesmo tendo sido tão rápida. Enquanto conversávamos no apê, eu e Layla nos olhávamos ao ponto de quase dizer um para o outro: Vamos ficar por aqui? hehehe!
Foi muito bom rever o vc e saber que está bem. Ficamos muito felizes por isso.
Mas não fuja. Esperamos vcs no carnaval em Brasília. Abraço.