eu só queria falar de videogame

Durante esse longo inverno em que passei sem escrever uma linha sequer que não fosse sob encomenda, pensei bastante sobre isso, de não conseguir escrever.

De tanto mentar, cheguei a uma conclusão (que, por ora, me basta): para escrever é preciso ter certezas. Podem até ser certezas pontuais. Pode ser até a certeza quanto à incerteza (subterfúgio algo taoísta que muito me atrai). O que importa é que ela exista. Fora da certeza, só existe a barbárie. Não dizem que o termo bárbaro tem origem na maneira como os estrangeiros balbuciavam e gaguejavam ao falar o grego? Então. É por aí. Fora da certeza só existe gagueira.

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E é aquela coisa: toda certeza está baseada, em última instância, numa crença. (Taí o Hume, que não me deixa mentir sozinho). E como ando meio incrédulo ultimamente, já viu, né?

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Há muito, muito tempo, quando eu ainda alimentava esperanças, essa idéia da gagueira do pensamento me fascinou. Topei com ela nos Diálogos, do Deleuze, e fiquei meio que obcecado. É que sempre tive um pensamento fragmentário, inconclusivo, cheio de pontas soltas. Na época eu não me dava conta, mas muito disso tinha a ver menos com uma característica do meu pensamento do que com minha preguiça e desorganização mesmo. Porque é aquilo: o caos é a desordem natural das coisas. A ordem, apolínea como ela só, pede organização, método, disciplina. Tudo que nunca tive!

O que a gente chama de mundo civilizado só existe para por ordem no caos. Ordenar é dar sentido, é construir, é empilhar tijolos. Só o que é ordenado, sistematizado, encadeado pode existir para o pensamento. Criar, nada mais é do que organizar o caos de uma certa maneira (tanto melhor se for à sua maneira, né fascistinha?). O caos, por si só, não significa nada. É não ser. E o não ser não é. Ponto.

A primeira impressão que tive ao ler Deleuze na juventude é de que a filosofia dele privilegiava a espontaneidade do pensamento, o pipocar algo alucinado das idéias. Hoje eu sei que, longe disso: há por traz de todo pensamento deleuziano um método extremamente rigoroso. Criar conceitos – ou, simplesmente, filosofar – exige disciplina e organização.

(Com meu pensamento indisciplinado, posso dizer que não se poderia esperar outra coisa de um capricorniano!).

Foi por isso que eu abandonei o curso de filosofia. Porque, ao contrário do que pensam os leigos, filosofar é tão difícil quanto construir prédios. A filosofia é a engenharia do pensamento.

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Antes que me apedrejem: eu não disse que a filosofia deleuziana não é libertadora não, viu? Só disse que pra construí-la, ele meio que se enclausurou (aquela coisa de não viajar, de dar aulas por anos na mesma universidade, de ter poucos e bons amigos). E talvez isso explique a fascinação dele por Espinosa, o excomungado. Não poucas vezes o filósofo francês mencionou com admiração a maneira como Espinosa compensava a debilidade física com um pensamento extremamente forte, livre e vivo. E, ó paí: essa filosofia da vida e da liberdade nasceu do método geométrico. Irônico, não?

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Eu não queria escrever sobre filosofia, quando comecei este texto. Queria falar de videogame.

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