cinco coisas que não sou, mas gostaria tanto de ser que arrisco

Julho 24, 2009 - 4 Responses

Fui convidado pelo Lessa para escrever sobre o tema acima, numa espécie de corrente blogueira que está rolando por aí. Não costumo participar dessas paradas (veja o caso do Romário, ludibriado pela tal pirâmide de sei-lá-o-quê!), mas como o Lessa é gente boa e me inspirou a começar a correr (por mais que eu tenha dado um tempo nesse projeto por conta da visita da minha irmã, que dura desde a semana passada e implica em muitos programas legais), aqui vai minha humilde contribuição.

Vamos às cinco coisas que não sou, mas gostaria tanto de ser que arrisco

Jodie+Foster+-+Taxi+DriverProxeneta
Para Satisfazer meu lado Bukowski

Ao contrário de muitos amigos que atravessaram o atlântico para realizar o sonho impossível do jovem Bruno Aleixo, que era ser imigrante em Coimbra, a mim nunca interessou morar na pátria mãe: sempre gostei mais da segunda opção de Aleixo: queria ser proxeneta. Desde criança, sempre tive um fascínio pelo universo feminino. Mulheres trocando de roupa, com a perna alçada na cadeira, fazendo as unhas dos pés, cheias de algodões entre os dedos. Gosto dos cheios femininos. Calcinhas, perfume, suor, sexo. Enquanto proxeneta, eu poderia participar de tudo isso e eventualmente dividir o leito com uma ou outra protegida, sem compromisso. Poderia encarnar minha porção Nelson Rodrigues e – de vez em quando, muito de vez em quando – dar uns tapas nas mais histéricas, só pra depois cobri-las de beijos e explicar que tudo que faço é para o bem delas. Faria a linha cafetão do bem e não hesitaria em deixar minhas pombinhas voarem (reparem que o canastrão já começa a mostrar as garras nessa metáfora infame) quando estivessem prontas – para um marido, para um emprego, para uma família ou para a indústria pornô. Elas adorariam trabalhar para mim.

Leitor de Originais
Para satisfazer meu lado meio intelectual, meio de esquerda

Quem me alertou para a existência desse emprego foi a Janine, mulher do Bruno (que já falou aqui sobre seu emprego ideal). Ela tem uma amiga privilegiada que recebe uma boa grana para passar seus dias lendo originais encaminhados à editora por aspirantes a escritor. Não sei os motivos (e os caminhos) que a levaram a esse emprego, mas sei bem o que me leva a desejá-lo: seria um jeito delicioso de fazer algo que me agrada e ainda exercer aqueles aspectos mais sádicos de minha personalidade. Pensem no prazer de ter em suas mãos, por exemplo, o destino de um potencial Paulo Coelho. Você pode optar por sinalizar para o editor que o cara vederá mais que coca-cola no deserto (e ficar rico); ou pode simplesmente ignorá-lo depois da quinta frase (e dormir em paz, com a certeza do dever cumprido): o que você faria?

Mochileiro Profissional
Para satisfazer minha vontade de mundo

Queria trabalhar para uma dessas publicações, especializadas em viagens. Queria encontrar alguém louco suficiente para bancar minha volta do mundo em oito vezes oitenta dias. Transitaria por todos os cantos, becos, vielas, calles, canais. Tomaria o expresso do oriente, o trem da morte, trem bala. Atravessaria a Route 66 de ponta a ponta e talvez descesse as cataratas do Niágara num barril. Seria, assim, um eterno estrangeiro, prolongando até o fim de meus dias aquele estado de espírito que só experimentamos no desterro. E tudo, então, seria uma eterna descoberta.

milesdavisTrompetista
Para satisfazer minha vontade de arte

Se fosse trompetista, montaria uma Jazz Band, viveria no Bronx e entraria naquela viagem do John Coltrane, de encontrar a iluminação através da música. Paradoxalmente, teria um comportamento autodestrutivo que deixaria as pessoas perplexas, incapazes de conciliar as imagens de minha genialidade no palco às de minha bestialidade na vida. Apreciariam meus concertos imersos num misto de melancolia e fascínio, aquele fascínio a um só tempo magnético e perturbador que emana do incompreensível. E minhas notas sairiam compulsivamente, do sopro contínuo e do bailado frenético de meus dedos negros. Meus olhos, ora vidrados, ora fechados, estariam sempre no infinito. Eu daria às pessoas meu transe e lhes ofereceria, às quintas, sextas e sábados, a possibilidade de sentir o verdadeiro fluxo da vida, o devir jazzístico que tomaria conta do palco, do ambiente, do bairro, do mundo. E ali eu estaria em paz, mais negro do que nunca, mais belo do que nunca, um solitário bem acompanhado pelos espíritos de Davis, Monk, Coltrane e – é obvio – Parker, el perseguidor.

arqueiro_zenArqueiro Zen
Para satisfazer meu lado místico

Seria arqueiro zen para não lamentar a impossibilidade desses outros sonhos. Passaria meus dias dependendo cada vez menos de pessoas e coisas. Comeria arroz diariamente e, subiria montanhas nevadas para aperfeiçoar minha arte cavalheiresca até a exaustão e, aos poucos passaria a compreender os ritmos do Tao, livrando-me de pra sempre do véu de maya que faz com que tudo não passe de “vaidade e aflição de espírito”. E viveria em paz.

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A segunda parte é mandar a brincadeira para outros blogueiros. Lá vai a minha lista: O RebateAli se viu, Em Terapia, Las reticências, Give me a reason, e Chaty

pachamama

Julho 22, 2009 - Leave a Response

Ontem fui à abertura da mostra Visões Periféricas, que está em cartaz no centro cultural da Caixa, aqui no Rio.

Exibiram o Pachamama, do Eryk Rocha, o filho do Glauber, que pelo “y” do nome, percebe-se, não nega as origens.

Confesso que eu não botava muita fé no filme. Não gosto muito dessa história de filho do fulano, irmão do beltrano, mas vá lá, pensei: estou em frente à Caixa, em companhia de pessoas legais e em posse de um ingresso gentilmente doado por uma amiga bem relacionada, não custa nada entrar.

Estava morrendo de sono. Tinha dormido pouco na noite anterior graças à famigerada idéia de jogar um ‘cadinho de inFamous pra “relaxar” um pouco antes de dormir; sabe como é, uma fase leva a outra e quando você se dá conta já está combatendo o big boss… só isso me tomou uma boa hora e meia de vida antes de eu olhar para o relógio e lembrar, putz, hoje é segunda-feira.

Ou seja: não era pra eu estar ali, naquele cinema, às 19 horas de terça. A atitude mais sábia seria ter ido pra casa, jogado um pouquinho até as 9h e tomado o rumo da cama (especialmente com este frio que anda fazendo), mas não: eu insisti. Como castigo, tive de aturar uma penca de discursos cheios de embromação e papinho furado: dos organizadores da mostra, do patrocinador, da animadora de torcida e do filho do Glauber. (Por sorte, tinha comigo aquela edição deliciosa do Último Round, do Cortázar, que me ajudou a entrar no clima latino).

Quando o filme começou, até gostei. Ou melhor, gostei muito. Apesar do evidente mau humor. Ao final da sessão, até discordei (em silêncio) dos comentários depreciativos de alguns espectadores desavisados e suas tiradas do tipo: “é como assistir a um Globo Repórter de duas horas sem o Sérgio Chapelin”. Eu sei que é maldoso, mas reconheça: foi engraçado.

Gracinhas à parte, o filme é bom mesmo. O percurso narrativo confirma as intenções declaradas pelo autor na primeira cena, quando ele afirma buscar um cinema do acaso, um road movie que surgisse da relação mesma com a estrada, com a idéia de viagem, de transição, de autodescoberta. E por aí vai. Se ficasse só no papinho jovem poeta e não confirmasse isso em imagens, o filme teria fracassado lindamente. Mas não. Ele vai por aí mesmo. O filme é bacana.

O que o espectador desavisado que citei a pouco não apreendeu do filme é que a diferenças entre o documentário e o Globo Repórter não é a ausência do Sérgio Chapelin, mas de uma tese. Comparar o filme de Eryk a uma matéria jornalística é o mesmo que comparar um turista a um mochileiro. O repórter e seus cinegrafistas sabem exatamente o que querem e buscam imagens para ilustrar seus discursos como um turista busca cartões postais para mostrar aos parentes; o documentarista e sua câmera passeiam de olhos bem abertos, primeiro vêem para depois contar suas histórias, como o mochileiro, para o qual o melhor da viagem está no virar da próxima esquina.

O objeto/sujeito do filme são os povos indígenas da região andina e a maneira como sua organização tem redesenhado o mapa geopolítico da região.

Para ler um texto que vá mais fundo na análise estética de Pachamama, vá à Cinética.

don’t stop ’till you get enough

Julho 21, 2009 - 2 Responses