Fui convidado pelo Lessa para escrever sobre o tema acima, numa espécie de corrente blogueira que está rolando por aí. Não costumo participar dessas paradas (veja o caso do Romário, ludibriado pela tal pirâmide de sei-lá-o-quê!), mas como o Lessa é gente boa e me inspirou a começar a correr (por mais que eu tenha dado um tempo nesse projeto por conta da visita da minha irmã, que dura desde a semana passada e implica em muitos programas legais), aqui vai minha humilde contribuição.
Vamos às cinco coisas que não sou, mas gostaria tanto de ser que arrisco…
Proxeneta
Para Satisfazer meu lado Bukowski
Ao contrário de muitos amigos que atravessaram o atlântico para realizar o sonho impossível do jovem Bruno Aleixo, que era ser imigrante em Coimbra, a mim nunca interessou morar na pátria mãe: sempre gostei mais da segunda opção de Aleixo: queria ser proxeneta. Desde criança, sempre tive um fascínio pelo universo feminino. Mulheres trocando de roupa, com a perna alçada na cadeira, fazendo as unhas dos pés, cheias de algodões entre os dedos. Gosto dos cheios femininos. Calcinhas, perfume, suor, sexo. Enquanto proxeneta, eu poderia participar de tudo isso e eventualmente dividir o leito com uma ou outra protegida, sem compromisso. Poderia encarnar minha porção Nelson Rodrigues e – de vez em quando, muito de vez em quando – dar uns tapas nas mais histéricas, só pra depois cobri-las de beijos e explicar que tudo que faço é para o bem delas. Faria a linha cafetão do bem e não hesitaria em deixar minhas pombinhas voarem (reparem que o canastrão já começa a mostrar as garras nessa metáfora infame) quando estivessem prontas – para um marido, para um emprego, para uma família ou para a indústria pornô. Elas adorariam trabalhar para mim.
Leitor de Originais
Para satisfazer meu lado meio intelectual, meio de esquerda
Quem me alertou para a existência desse emprego foi a Janine, mulher do Bruno (que já falou aqui sobre seu emprego ideal). Ela tem uma amiga privilegiada que recebe uma boa grana para passar seus dias lendo originais encaminhados à editora por aspirantes a escritor. Não sei os motivos (e os caminhos) que a levaram a esse emprego, mas sei bem o que me leva a desejá-lo: seria um jeito delicioso de fazer algo que me agrada e ainda exercer aqueles aspectos mais sádicos de minha personalidade. Pensem no prazer de ter em suas mãos, por exemplo, o destino de um potencial Paulo Coelho. Você pode optar por sinalizar para o editor que o cara vederá mais que coca-cola no deserto (e ficar rico); ou pode simplesmente ignorá-lo depois da quinta frase (e dormir em paz, com a certeza do dever cumprido): o que você faria?
Mochileiro Profissional
Para satisfazer minha vontade de mundo
Queria trabalhar para uma dessas publicações, especializadas em viagens. Queria encontrar alguém louco suficiente para bancar minha volta do mundo em oito vezes oitenta dias. Transitaria por todos os cantos, becos, vielas, calles, canais. Tomaria o expresso do oriente, o trem da morte, trem bala. Atravessaria a Route 66 de ponta a ponta e talvez descesse as cataratas do Niágara num barril. Seria, assim, um eterno estrangeiro, prolongando até o fim de meus dias aquele estado de espírito que só experimentamos no desterro. E tudo, então, seria uma eterna descoberta.
Trompetista
Para satisfazer minha vontade de arte
Se fosse trompetista, montaria uma Jazz Band, viveria no Bronx e entraria naquela viagem do John Coltrane, de encontrar a iluminação através da música. Paradoxalmente, teria um comportamento autodestrutivo que deixaria as pessoas perplexas, incapazes de conciliar as imagens de minha genialidade no palco às de minha bestialidade na vida. Apreciariam meus concertos imersos num misto de melancolia e fascínio, aquele fascínio a um só tempo magnético e perturbador que emana do incompreensível. E minhas notas sairiam compulsivamente, do sopro contínuo e do bailado frenético de meus dedos negros. Meus olhos, ora vidrados, ora fechados, estariam sempre no infinito. Eu daria às pessoas meu transe e lhes ofereceria, às quintas, sextas e sábados, a possibilidade de sentir o verdadeiro fluxo da vida, o devir jazzístico que tomaria conta do palco, do ambiente, do bairro, do mundo. E ali eu estaria em paz, mais negro do que nunca, mais belo do que nunca, um solitário bem acompanhado pelos espíritos de Davis, Monk, Coltrane e – é obvio – Parker, el perseguidor.
Arqueiro Zen
Para satisfazer meu lado místico
Seria arqueiro zen para não lamentar a impossibilidade desses outros sonhos. Passaria meus dias dependendo cada vez menos de pessoas e coisas. Comeria arroz diariamente e, subiria montanhas nevadas para aperfeiçoar minha arte cavalheiresca até a exaustão e, aos poucos passaria a compreender os ritmos do Tao, livrando-me de pra sempre do véu de maya que faz com que tudo não passe de “vaidade e aflição de espírito”. E viveria em paz.
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A segunda parte é mandar a brincadeira para outros blogueiros. Lá vai a minha lista: O Rebate, Ali se viu, Em Terapia, Las reticências, Give me a reason, e Chaty
Ontem fui à abertura da mostra
Quando o filme começou, até gostei. Ou melhor, gostei muito. Apesar do evidente mau humor. Ao final da sessão, até discordei (em silêncio) dos comentários depreciativos de alguns espectadores desavisados e suas tiradas do tipo: “é como assistir a um Globo Repórter de duas horas sem o Sérgio Chapelin”. Eu sei que é maldoso, mas reconheça: foi engraçado.